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Deirdre McCloskey: “Eu não vejo obstáculos para que o Brasil se torne um país rico em cerca de 30 anos, se todos estiverem focados nisso”. Entenda a posição da economista em entrevista exclusiva!

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“São as pessoas que inovam, são as pessoas que têm a iniciativa de buscar um emprego melhor, são as pessoas que trabalham duro para ter dinheiro suficiente para a educação de seus filhos, certo?! São as pessoas que fazem a economia, não os governos.” Este é um dos pilares do posicionamento de Deirdre McCloskey, uma das mais influentes economistas da atualidade com 17 livros escritos e cerca de 400 artigos acadêmicos publicados, que esteve no Brasil por um evento na última semana e também passou pelo EBANX para compartilhar sua visão em relação ao cenário econômico da América Latina e desenvolvimento dos países da região.

Em uma entrevista exclusiva, a economista falou sobre o Brasil, a América Latina e o que ela acredita ser o caminho para o desenvolvimento dos mercados emergentes. Confira abaixo os destaques desta conversa com a especialista americana.


Foto: Deirdre McCloskey. Fonte: EBANX

“Eu sou a favor de ajudar os pobres, mas o que o governo faz, não ajuda os pobres”

A economista que segue o estilo da escola de Chicago inicia a conversa debatendo sobre a sua visão geral a respeito do modelo ideal de assistencialismo para auxiliar no crescimento econômico dos países, principalmente em mercados emergentes. “Eu sou a favor de ajudar os pobres, mas o que o governo faz, não ajuda os pobres, vai para os militares, para a classe média, fazendeiros, não vai para os pobres. Mas, se uma parcela do que o governo coleta realmente fosse para os pobres, não haveriam pobres […]. Então, eu sou a favor de usar o governo para ajudar aos pobres, mas de uma forma restrita e sensível que realmente os ajudasse. Esse é o problema. […] Nós precisamos de medidas liberais combinadas com razoáveis redes de segurança” afirma Deirdre McCloskey.

Quando questionada sobre quais redes de segurança seriam estas, a economista explica que “a mais simples é a que vocês já têm [no Brasil], o Bolsa Família. Mas por outro lado vocês deveriam se livrar de outras coisas como casas públicas, idade mínima para trabalho, protecionismo, saúde pública. Tudo deveria vir do setor privado, mas dando às pessoas pobres dinheiro suficiente para participar do setor privado”, define a especialista.

“Os governos não são bons empreendedores”

Além disso, a economista afirmou também a sua opinião a respeito da relação entre empresas e o governo e segundo ela “os governos não são bons empreendedores, eles fazem más decisões sobre o que fazer. É o que nós chamamos nos Estados Unidos de “Política Industrial”, quando o governo escolhe vencedores para investir dinheiro, não é uma boa ideia. Os consumidores e os negócios devem decidir o que fazer, não o governo”.

Ela justifica seu posicionamento esclarecendo a posição do empreendedor em meio a todas as intervenções externas. “Os funcionários conhecem suas habilidades e seus consumidores sabem o que querem. O empresário não é um planejador central, ele escuta. Ele escuta ao que seus funcionários e seus consumidores querem e pensa “ah eles querem isso? Ah ok, eu acho que posso falar com alguém para que ela faça isso por essa pessoa”. Então, o empresário é uma ponte, é alguém que escuta e observa”, de acordo com Deirdre McCloskey.

Ou seja, a economista defende um posicionamento em que o empresário possua mais liberdade para tomar decisões dentro do segmento em que é especialista com menos intervenções do governo que pode não entender à fundo as necessidades do negócio.

“O futuro do Brasil depende principalmente dos brasileiros”

O Brasil está no centro das atenções. Após o controverso período eleitoral pelo qual o país passou neste ano, o mundo está acompanhando quais serão os próximos passos do novo governo da principal economia da América Latina. Sobre o futuro do país, Deirdre compartilhou o que acredita ser necessário para que o país retome o ritmo de crescimento acelerado.

“Se os brasileiros fizessem tudo como as grandes potências fizeram, então o Brasil seria rico, é simples assim”, afirma McCloskey. E a economista prossegue explicando qual é a responsabilidade da população para influenciar o crescimento do país, de acordo com o seu ponto de vista. “Vocês podem construir estradas tão boas como as alemãs […], faça carros tão bem quanto os japoneses, é assim que se faz. Não existe uma ciência exata para se tornar rico. Faça as coisas da melhor forma possível, não é tão difícil, é uma tendência do nosso próprio comportamento humano nas nossas próprias atividades. Se você é um escritor, tente escrever tão bem quanto outros escritores. É algo óbvio e tem muito pouco a ver com o governo”, conclui ela.

Na sequência, foi perguntado a Deirdre o que o governos deveria prover para garantir a condição de crescimento do país e de acordo com a opinião da economista “esta não é a melhor forma de analisar o cenário, esse é o erro fatal, pensar que o governo irá fornecer todas as condições para crescer”. A especialista exemplificou sua declaração com a condição da educação, segundo ela o governo deve oferecer “apenas educação primária, não universidades. Universidades não devem ser um recurso do governo. A grande razão é que elas são fornecidas pelos governos em todo o mundo, na França todas as universidades são públicas, isso é uma enorme desvantagem para as pessoas pobres em relação aos ricos. As crianças ricas têm uma preparação melhor para a universidade e eles querem ir à universidade, mas os filhos de trabalhadores operacionais não consideram ir à universidade. Então, você tem impostos nacionais destinados a pagar professores como eu para ensinar jovens ricos, sou contra isso. Não deveriam ser os impostos que pagam por isso”, conclui McCloskey.

Além disso, a especialista expressa ainda sua opinião sobre o caminho para o crescimento do Brasil nos próximos anos. “Eu não vejo obstáculos para que o Brasil se torne um país rico em cerca de 30 anos, se todos estiverem focados nisso. Mas se a população continuar aguardando que o governo forneça tudo para que ela se desenvolva, vocês vão continuar pobres, vocês vão melhorar um pouco, mas vocês vão crescer mais devagar, não atingirão a média de 5% de crescimento ao ano”, afirma ela.

Os governos paternalistas da América Latina

Seguindo os pilares de sua corrente de pensamento, a economista analisou também o cenário dos países latino-americanos em relação ao seu desenvolvimento econômico e crescimento respondendo a seguinte pergunta: qual é a sua visão como economista sobre a América Latina?
Inicialmente, a economista ressaltou os aspectos culturais da região e, principalmente, do Brasil. “Eu acho que são países muito criativos. […] Eu consigo ver um país vibrante [o Brasil] com ótimas manifestações artísticas, musicais e literárias, com uma ótima indústria, grandes empresas. Eu não vejo nenhum obstáculo cultural para que o Brasil torne-se rico, eu não vejo nenhum obstáculo cultural para que a África torne-se rica, eu acho que todo o mundo pode tornar-se rico. Agora, não é só sobre tornar-se rico, é sobre transcender os propósitos da vida, é sobre buscar outras coisas. Deus, ciência, arte, futebol, o que quer que seja sua maneira de transcender os propósitos humanos. […]”, ressaltou McCloskey retomando a filosofia em que acredita de que a população precisa assumir a responsabilidade de qualificação em suas atividades diárias para colaborar com o crescimento da nação como um todo.

Mas a especialista ressalta também a razão que ela acredita ser um impeditivo para atingir este cenário considerado ideal pela economista. “O problema são casos como a Argentina e o pior caso na Venezuela, [os países latino-americanos] eles têm essa tradição de governos paternalistas ou maternalistas, o problema é que a população pensa “era bom quando eu tinha um pai ou uma mãe, eu era uma criança, eles tomavam conta de mim”, mas o problema é quando os “pais” ou “mães” da nação terminam sendo desonestos”, conclui Deirdre McCloskey.

Conclusão

A especialista defende um modelo em que a população assume mais responsabilidades, enquanto o governo passa a atuar em um modelo que garante o poder de participação na iniciativa privada, mesmo as classes sociais mais baixas, para que seu nível de intervenção seja sempre o menor possível.

A visão econômica do liberalismo é apenas uma vertente entre várias outras que podem aplicar-se para analisar o mercado da América Latina e a visão da economista revela um outro aspecto em relação às análises tradicionalmente realizadas sobre os modelos econômicos aplicados a região.

A moral da história neste caso é que todos os países latino-americanos, em especial o Brasil, têm potencial para tornarem-se países ricos, retomando ritmos de crescimento acelerados. E, para Deirdre McCloskey, não há um grande segredo para o sucesso, pelo contrário, a chave está no esforço contínuo da população e do governo para construção de um estado a cada dia mais qualificado.

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