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As vantagens e os desafios dos métodos de pagamento em tempo real para a América Latina

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Um pé no futuro e outro no passado. Quando se trata de métodos de pagamento, é nesse patamar que a América Latina se encontra.

Mesmo com o crescimento consistente de suas principais economias nas últimas décadas e com grande parte da população conectada à internet por meio de dispositivos móveis, a região ainda depende de sistemas de pagamento que, em alguma medida, desfavorecem diversos atores do ecossistema financeiro, das instituições mais convencionais ao consumidor final.

Por ser incompatível com a magnitude do mercado latino-americano, esse cenário vem sendo transformado por iniciativas de modernização dos métodos de pagamento. Os bancos centrais, as agências reguladoras, os governos e as instituições financeiras dos países da América Latina estão desenvolvendo medidas para garantir mais agilidade e segurança às transações comerciais na região.

Nesse ponto, os Pagamentos em Tempo Real (PTR) representam uma das apostas mais promissoras.

Neste texto, vamos abordar as vantagens que o comércio na América Latina teria com os PTR, amplamente adotados pelas maiores economias do mundo e que, de certo modo, representam uma tendência praticamente irreversível para o mercado global. Além dos benefícios e dos desafios representados pelos PTR, você também poderá conferir um mapa interativo com as medidas adotadas pelos principais países latino-americanos em direção à modernização dos métodos de pagamento na região.

O texto se baseia na pesquisa Pagos en tiempo real en América Latina: el potencial para una disrupción masiva, realizada pela ACI Wordwide e pela Americas Market Intelligence, líder de inteligência de mercado na América Latina.

O estudo foi produzido entre junho e outubro de 2018 com base em entrevistas de profundidade realizadas com especialistas de mercados importantes da América Latina e em dados públicos relacionados às economias e às populações de cada país.

Vantagens dos PTR na América Latina

Realizar uma transferência bancária a qualquer hora do dia, em qualquer dia da semana, com liquidação imediata e confirmação instantânea. Resumidamente, esse procedimento simples é o que define os PTR, o método de pagamento mais apropriado para um mundo repleto de relações conectadas e ágeis. Não é à toa que mais de 20 países já contam com redes de PTR praticamente consolidadas e outros 45 estão desenvolvendo mecanismos de modo acelerado.

O estudo realizado pela ACI Wordwide e pela AMI sublinham que a popularização dos PTR se deu à margem das instituições bancárias convencionais para cobrir algumas lacunas deixadas pelos métodos tradicionais que, de certa forma, estão em descompasso com o ritmo acelerado e desburocratizado da tecnologia.

A cobrança de altas taxas e o processamento lento das transações se tornaram incompatíveis com a realidade da indústria bancária, que vive profundas transformações impulsionadas por um consumidor cada vez mais preocupado com a agilidade, a conveniência e a acessibilidade dos serviços.

Na América Latina, o cenário não é diferente: a GfK, empresa líder em pesquisa de mercado, estima que a região terá 240 milhões de usuários de smartphones em 2019. Além disso, 30% dos latino-americanos bancarizados utilizam o celular para realizar operações bancárias. O crescimento vertiginoso dos bancos exclusivamente digitais e das empresas fintech na região são reflexos dessa dinâmica digital e móvel que revolucionou o mercado.

Por outro lado, a população latino-americana ainda não passou por um processo completo de inclusão financeira. Atualmente, 49% dos adultos da região não possuem conta bancária, o que estimula a predominância do dinheiro em espécie nas relações comerciais de praticamente todos os países.

A implementação dos PTR surge, então, como uma estratégia promissora para estimular a inclusão financeira e reduzir a circulação do dinheiro em espécie.

Com a otimização das transferências, além de contar com a praticidade de poder realizar transferências a qualquer momento, o consumidor economiza com as taxas exigidas pela emissão de cartões de débito e crédito e evita as cobranças pelos saques em caixas eletrônicos. Já o volume reduzido de dinheiro em espécie no mercado favorece também o governo, pois dificulta a lavagem de dinheiro e a inadimplência em relação aos impostos.

Para os comerciantes, as vantagens são várias. Manter um Point Of Sale (POS) acabou se tornando inviável para grande parte dos empreendedores latino-americanos, principalmente os de pequeno porte. Dados de 2018 do Banco do México apontam que apenas 19% das pequenas empresas mexicanas aceitam pagamento em cartão. As altas taxas cobradas dos comerciantes e a demora para a liquidação da transação explicam a resistência à adesão a esse método de pagamento.

No Brasil, por exemplo, o desconto aplicado nas operações é de 1,45% no cartão de débito e 2,60%  no de crédito. Quando essa cobrança é somada à espera de semanas para que a liquidação seja efetuada, muitos empreendimentos acabam se tornam insustentáveis. Os PTR chegam para simplificar esse processo para os investidores e também agilizar o processo de reembolso, problema recorrente no cotidiano dos comerciantes.

O estudo ainda ressalta que os PTR podem contribuir significativamente para o fortalecimento do comércio cross-border de bens e serviços entre os países da América Latina, o que fortaleceria a região como bloco econômico e a tornaria mais competitiva em nível global. Atualmente, a natureza desconexa desses mercados é uma das responsáveis pelo sufocamento do potencial de crescimento da região.

Superar as divergências, encontrar o comum

Ainda que seja uma tendência global, a implementação dos PTR na América Latina depende da superação de uma série de desafios, que são apontados no estudo. O primeiro é a criação de estratégias para reverter o quadro de baixa bancarização da população. Nesse ponto, caberia às instituições financeiras a flexibilização das exigências para a inscrição de novos clientes de maneira simplificada.

Em seguida, mas não menos importante, está a necessidade de garantir a interoperabilidade entre as contas bancárias, o que, em outras palavras, diz respeito à facilitação das transações financeiras entre bancos. Para que se atinja esse ponto, no entanto, é imprescindível a conciliação de interesses e objetivos entre os atores que compõem o ecossistema financeiro.

Em certa medida, os bancos provavelmente estão se sentindo ameaçados com as inovações nos métodos de pagamentos, já que a implementação dos PTR reduziria ou até mesmo eliminaria os lucros oriundos das cobranças pelas transações de débito e crédito. No caso do Brasil, por exemplo, somente as comissões exigidas das operações de débito somam um montante aproximado de R$ 4 bilhões. Diante desse cenário, não surpreende que instituições financeiras tradicionais expressem resistência à massificação dos PRT.

Por outro lado, o estudo ressalta que outras possibilidades se abrem. Se optarem pela expansão das formas de pagamento eletrônico entre contas, os bancos poderão garantir mais independência em relação às redes de cartões, gerar mais oportunidades de vendas cruzadas e aprimorar sistemas obsoletos para competir de igual para igual com empresas fintech.

Em que patamar está a América Latina?

As principais economias latino-americanas estão em patamares diferentes quanto à implementação dos métodos de PTR. Em nenhuma delas, contudo, esse método de pagamento é uma realidade consolidada. Na maioria dos países, as transações só podem ser realizadas em horário comercial ou entre contas do mesmo banco.

E para que você confira qual é o cenário atual nos principais países latino-americanos, criamos um mapa interativo com os aspectos específicos de cada um deles:

Integração é a saída

Com base no estudo e no panorama apontado para os países latino-americanos, fica cada vez mais nítida a trajetória da região em direção aos PTR. Bancos centrais e agências reguladoras da região estão cada vez mais direcionados a um futuro de métodos de pagamento mais modernos, popularizados e sem a necessidade de intermediários.

A adesão aos PTR certamente estimularia a inclusão financeira dos desbancarizados e  facilitaria o fluxo comercial entre os países latino-americanos por meio da implementação de métodos inovadores.

Para que isso seja possível, contudo, o estudo sugere a colaboração, o envolvimento e a aliança entre os diversos atores do ecossistema financeiro para que todos possam se reinventar e se beneficiar com essas mudanças.

Se conseguirem promover os PTR em de forma propositiva, sugere a publicação, as instituições financeiras podem deixar de ser vítimas desse processo para assumirem o papel de aceleradoras dele. Resta aguardar para conferir o que 2019 reserva para o comércio da América Latina nesse âmbito.

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