aeroporto internacional Guarulhos Brasil
Saguão do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Foto: Shutterstock.
Turismo

O voo de galinha ainda não virou voo de cruzeiro

Após uma longa crise e a falência da Avianca, os próximos 12 meses serão decisivos para a aviação no Brasil

Read in english

Na campanha presidencial de 2014, que resultaria na reeleição de Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula participou da propaganda de sua sucessora exaltando o que ele considerava (e ainda deve considerar) ser um grande feito da era petista: o brasileiro passou a viajar mais de avião.

Lula, devidamente orientado por seus marqueteiros, dizia que voar “deixou de ser um privilégio de poucos e se tornou um direito de todos”. É verdade que muitos brasileiros andaram de avião pela primeira vez naquele período. O PT surfou em uma economia estabilizada pelo Plano Real, forçou os bancos a jorrarem crédito no mercado e o boom de consumo que viria a render milhões e milhões de votos se concretizou.

Mas os mesmos brasileiros que trocaram os ônibus pelos aviões agora se veem mais distantes dos aeroportos. Por óbvio, o crescimento alicerçado quase que exclusivamente no consumo das famílias não se sustentou. Logo veio o endividamento, as taxas de inadimplência aumentaram e potenciais passageiros foram perdendo renda e emprego.

LEIA TAMBÉM: Controladora da British Airways e Iberia compra low-cost Air Europa

Os ajustes nas contas domésticas resultaram na queda da demanda por voos pelo Brasil. Tomemos como exemplo o aeroporto de Brasília, um dos principais hubs do país. Desde que o terminal foi concedido à iniciativa privada, em 2012, o mês de agosto deste ano foi o pior em movimento, na comparação com iguais períodos dos anos anteriores: passaram pelo aeroporto pouco mais de 1,2 milhão de passageiros, ante os 1,6 milhão registrados no melhor agosto desse período, o de 2015.

Embora os dados gerais do setor remetam a uma montanha-russa, de tantos altos e baixos, percebe-se um arrefecimento na procura por passagens aéreas.

Pelas estatísticas mais atualizadas da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), a oferta de operações domésticas realizadas nos primeiros oito meses de 2019 foi 2,21% inferior à apurada em igual intervalo do ano passado. Desde abril, a oferta tem caído mês a mês.

Reduzir o número de voos tem sido uma das estratégias das companhias aéreas na busca de adaptação às oscilações do mercado.

LEIA TAMBÉM: Efeito low-cost começa a dar os primeiros sinais: preço de passagens aéreas cai até 23% no Brasil

Por que o brasileiro está voando menos

O momento atual da aviação doméstica no Brasil se explica por uma série de fatores, além da economia insistentemente estagnada. De maneira concreta, guarda relação com o fim das operações da Avianca, a partir de abril, e à consequente reacomodação do setor em razão da saída de um player importante. Pesa ainda o novo patamar elevado do dólar frente ao real, uma vez que os custos da aviação fortemente impactados pela moeda americana.

Diante desse cenário e com o mercado ainda bastante concentrado, os preços das passagens aéreas, claro, dispararam nos últimos anos. Segundo o IPCA, o índice oficial de inflação do Brasil, o valor médio dos bilhetes saltou 16,92% no ano passado, sendo que eles já tinham aumentado, também em média, 3,10% no ano anterior. Ainda que os preços estejam sendo freados ao longo deste ano, os valores não se comparam a períodos recentes, quando passagens de ida e volta entre cidades como Brasília e São Paulo ou Rio de Janeiro chegavam a ser oferecidas, durante não raras promoções, a menos de R$ 200.

A aprovação no Parlamento brasileiro, em maio último, da medida que permite que o capital social das empresas aéreas com sede no Brasil seja totalmente estrangeiro pode e deve forçar uma queda nos preços. Mas isso se, de fato, desembarcarem no Brasil companhias verdadeiramente low cost, como tem alardeado o governo. Por enquanto, não há nada confirmado envolvendo voos domésticos, principalmente.

LEIA TAMBÉM: Investimento global cai 20%; Brasil é o quarto maior destino

O empresário Carlos Vieira, que presidiu a Associação Brasileira de Agências de Viagens no Distrito Federal (Abav-DF), disse a esta coluna que percebe uma diminuição significativa na frequência de viagens no Brasil.

“A gente sente alguma pequena melhora pontual, mas ninguém vai viajar para comemorar o desemprego”, pontuou. Atualmente, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 12,8 milhões de pessoas desempregadas no país.

Viajar faz parte do cardápio do brasileiro, é o item número 1 na pauta de lazer. Mas também é a primeira coisa a ser cortada quando a situação financeira aperta.

Carlos Vieira, que presidiu a Associação Brasileira de Agências de Viagens no Distrito Federal (Abav-DF).

O preço das passagens, na avaliação de Vieira, tem dificultado a reação do mercado, ainda mais levando em conta novos custos extras dos passageiros com despacho de bagagens e marcação de assentos. “Com os níveis tarifários atuais, complica. Quem até pouco tempo atrás fazia quatro ou cinco viagens por ano agora está fazendo uma ou duas, no máximo. O preço continua sendo fator determinante para o volume de vendas”, comentou.

Os próximos 12 meses, muito provavelmente, serão decisivos para a aviação no Brasil. Uma coisa já está bem clara: celebrar politicamente aeroportos cheios não cria um mercado sólido e com crescimento sustentável. O voo de galinha ainda não virou voo de cruzeiro.