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"Não há bala de prata, uma única solução em que apostamos", diz country manager da Visa sobre futuro dos pagamentos

Em entrevista ao LABS, o country manager da Visa no Brasil, Fernando Teles, de como a aposta em inovação está levando a empresa a vencer seu maior inimigo: dinheiro vivo

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Nem Mastercard, nem fintechs. O maior inimigo da Visa na América Latina é o dinheiro vivo. No Brasil, de 2008 para 2018, o valor transacionado por cartões no país passou de R$ 335,67 bilhões para R$ 1,5 trilhão, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartão de Crédito e Serviços, a Abecs. Com isso, os pagamentos por cartão já respondem por 40% dos gastos das famílias brasileiras – patamar que também se deve à abertura gradual do segmento pelos órgãos reguladores, a partir de 2010, e à consequente entrada de novos players na cadeia como um todo.

Até 2022, a meta de bandeiras, como a Visa e a Mastercard, credenciadores e adquirentes, é fazer com os cartões e os meios eletrônicos de pagamento correspondam a 60% dos gastos das famílias brasileiras

O desafio por trás dessa meta não é só uma questão de tecnologia, mas de cultura e de como os meios de pagamento, juntamente com a popularização do telefone celular, têm o poder de contribuir para a formalização das relações de produção e para a inclusão social de uma população. Isso quer dizer que o desenvolvimento dos meios de pagamento segue vários caminhos, que variam de país para país.

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O que é fato é que esse potencial é enorme na América Latina. Basta olhar os números de países como os Estados Unidos e a Coreia do Sul, onde o uso de cartões chega a 45% e 70% dos gastos das famílias, respectivamente.

Se na China o pagamento móvel e/ou instantâneo já ultrapassou o físico via cartões e floresceu à margem do mercado regulado, isso não ocorrerá no Brasil, onde há um parque instalado das maquininhas gigante e em pleno desenvolvimento.

“Diria que não existe uma bala de prata, uma única solução em que apostamos, e quem vai escolher é o próprio consumidor, que já está empoderado o suficiente para escolher a que lhe oferecer maior conveniência em seu dia a dia”, avalia o country manager da Visa no Brasil, Fernando Teles

O country manager da Visa no Brasil, Fernando Teles. Crédito: Visa/Divulgação.

Em entrevista ao LABS, ele falou sobre o futuro dos pagamentos e também de uma verdadeira transformação, no últimos três anos, com foco em inovação abriu novos horizontes de atuação para a Visa no país. Confira:

LABS – Você já disse que a evolução dos pagamentos não eliminará, tão cedo, as maquininhas muito menos o cartão de débito. Isso também muito olhando para a América Latina e o Brasil, num contexto de desbancarizados, informalidade e mesmo de otimização dos meios de pagamento físico existentes. Pensando nisso, qual será a próxima solução de pagamento a ser amplamente adotada pelos brasileiros?

Teles – De acordo com a Abecs [Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços], os pagamentos realizados com cartões de crédito, débito e pré-pagos devem crescer em torno de 16% em 2019, chegando ao patamar de R$ 1,8 trilhão. Com isso, as compras com cartões devem registrar, no 4.º trimestre de 2019, uma participação recorde de 40% em relação ao volume do consumo das famílias brasileiras. 

Esse forte aumento decorre do processo de digitalização dos pagamentos, em que cada vez mais consumidores de todo o país usa os cartões e outros meios digitais, seja presencialmente, seja pela internet ou aplicativos, em suas compras. E, cada vez mais lojas e prestadores de serviços estão aceitando esse tipo de transação.

Ou seja, ainda há muito espaço para crescimento. Diria que não existe uma bala de prata, uma única solução em que apostamos, e quem vai escolher é o próprio consumidor, que já está empoderado o suficiente para escolher a que lhe oferecer maior conveniência em seu dia a dia.

Além dos pagamentos por aproximação, acredito também que as próximas soluções que serão amplamente adotadas pelos brasileiros são as transferências instantâneas de pessoa para pessoa e/ou entre empresas; e a aceitação do débito online, seja no e-commerce quanto em aplicativos.

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No caso da transferência instantânea, será possível fazer pagamentos diretos entre pessoas (P2P), pagamentos de empresas para pessoas como indenizações de seguros e pagamentos de prestadores de serviços (B2C), pagamentos de contas de consumidores para empresas (C2B) e transferência de fundos entre empresas (B2B). A transferência pode ser feita em qualquer dia da semana e a qualquer hora do dia, inclusive nos fins de semana e feriados. A Visa em parceria com a Cielo e o Banco do Brasil, já disponibilizaram a tecnologia por meio do Visa Direct.

Já o caso do débito online, será um excelente aliado na inclusão digital dos brasileiros. Com a atualização de nosso protocolo de autenticação, chamado 3DS 2.0, a utilização do débito em larga escala, sem maquininha, direto no app, sem necessidade de re-inclusão de senha a cada operação se tornará realidade. Atualmente o débito passou a ocupar um espaço importante entre os novos negócios, como mobilidade, streaming, serviços de delivery, entre outros.

LABS – Como está a aderência do público brasileiro às tecnologias de pagamento por aproximação e wearables?

Teles – O pagamento por aproximação vem definindo a forma como os brasileiros realizam suas compras, pela conveniência de ser mais prático e rápido, e pela segurança do usuário não precisar passar o cartão de mão em mão para que a compra seja concluída. 

O transporte público é um dos setores que vem ajudando na popularização da tecnologia. Em maio deste ano, a Visa, em parceria com o MetrôRio, anunciou a implantação do pagamento por aproximação para cartões de crédito, celulares, pulseiras, entre outros wearables para pagamento da passagem. Cariocas e turistas já aderiram à tecnologia do pagamento por aproximação no metrô do Rio.

Segundo dados da VisaNet, desde o lançamento da nova opção de pagamento no final de abril até julho, o número de transações por aproximação realizadas nas 41 estações de metrô do Rio de Janeiro cresceu 58%. Além disso, 94% das pessoas que usaram a solução no metrô pela primeira vez, voltaram a usar recorrentemente, segundo o MetrôRio. 

Em junho, a Visa ultrapassou o número de 2,5 milhões de transações mensais realizadas usando a tecnologia do pagamento sem contato no Brasil. E esse crescimento tem sido exponencial desde janeiro, quando registramos um milhão. Esses números demonstram que os brasileiros estão cada vez mais adeptos à tecnologia que torna a experiência do pagamento mais prática e rápida.

Esse aumento também se deve ao fato de o país já estar praticamente pronto para aceitar a tecnologia, mais de 82% dos terminais de pagamentos instalados no mercado brasileiro já estão habilitados para receber a tecnologia.

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3. Algumas pesquisas já mostraram que o brasileiro costuma ser mais aberto a novas tecnologias do que indivíduos de outros lugares. Por que isso acontece? 

Somos um país estratégico, pois temos um parque de aceitação gigantesco e um povo sedento por experimentar novas tecnologias. O brasileiro é early adopter e gosta muito de testar novidades. E porque são favoráveis à implementação de novas tecnologias tornam-se usuários assíduos das soluções de empresas, assim como disseminam e validam o que foi lançado. 

LABS – Como estão os investimentos em inovação da Visa? 

Teles – Não abrimos valores de investimentos, mas inovação é um dos pilares que fazem da Visa uma das maiores empresas do mundo. Nos últimos anos, realizamos uma verdadeira transformação na forma como trabalhamos disrupção dentro da companhia. 

Há três anos abrimos o nosso Estúdio de Inovação em São Paulo. É nesse espaço que reunimos funcionários da Visa, clientes e startups para cocriar o futuro da indústria de tecnologia de pagamento do Brasil. Nosso centro de inovação testemunhou o surgimento de soluções de inteligência artificial, formas de facilitação de pagamento digitais, entre outros. Nossos clientes chegam com o problema que querem resolver e, por meio da metodologia de design thinking, conseguimos sair da sessão de cocriação com soluções e produtos assertivos. Ganhamos agilidade. Muitas vezes, lançamos projetos complexos e seguros em menos de 3 meses – o que tem sido uma verdadeira revolução dentro da indústria.

Estúdio de Inovação da Visa Brasil, em São Paulo. Crédito: Danilo Stoqui/Divulgação.

Aqui na Visa não tem mais uma equipe responsável por inovação. Todos os funcionários da empresa participam dos processos de desenvolvimento de soluções. Desde que implementamos metas compartilhadas, conseguimos gerar uma troca de experiência de riqueza incomensurável entre executivos das mais diversas áreas. Hoje, vemos em um único grupo de trabalho uma mescla de conhecimento e de experiências extremamente rica das mais diferentes áreas.

Ao estreitarmos o relacionamento com as startups, crescemos juntos. Nos últimos três anos, nos aproximamos do ecossistema de empreendedorismo digital por meio do Programa de Aceleração Visa. Até o final do ano, mais de 70 startups passarão por nosso programa e o mais importante é que aprendemos tanto quanto eles. 

Fizemos questão de colocar nossos funcionários, de todos os cargos e áreas, para trabalharem como mentores das fintechs que participam do nosso Programa de Aceleração de Startups, por entender que é preciso aprender com o mindset dos empreendedores digitais a como pensar rápido, a perder o medo do erro e a buscar resultados exponenciais. E isso não deve ser centralizado nas áreas voltadas a tecnologia apenas. Engana-se quem pensa que inovação é necessariamente algo hightech. Desde que entrei na Visa, me surpreendi com a quantidade de inovação liderada por áreas processuais como contas a pagar, por exemplo. Entender como fazer o mesmo de uma forma mais ágil, conveniente e melhor também é ser disruptivo e esse time tem feito isso como ninguém.

LABS – Como está o programa Cidades do Futuro, que começou com três e agora já está em 200 cidades, nesse contexto de inovação? É o projeto mais abrangente e complexo da Visa em termos de inovação?

Teles – O Brasil é uma país heterogêneo, muito diverso. Desde o início do programa tivemos o cuidado de contemplar ações e iniciativas que atendessem às características e necessidades de cada cidade atendida pelo programa. Promovemos uma série de ativações, como promoções de incentivo ao uso do cartão, hackathons, ações de educação financeira e crescimento da emissão e da aceitação dos pagamentos eletrônicos.

Vemos que o objetivo em transformar o ecossistema de pagamento dessas regiões está se cumprindo, graças a esse nosso cuidado e aos nossos parceiros como o EBANX, que vem nos auxiliando a alavancar o desenvolvimento e reforçar os benefícios dos meios eletrônicos de pagamento nas cidades de Cascavel e Paranaguá, na região sul do país.

Comemoramos um ano agora em agosto, e de acordo com um levantamento feito pela nossa consultoria, Visa Consulting & Analitycs (VCA), pudemos ver um crescimento expressivo de cerca 84% na adoção de pagamentos eletrônico nas cidades piloto – Maringá, Belém e Campina Ainda há muito o que fazer, mas estamos felizes com esse resultado, já são mais de duzentas cidades impactadas.