Ônibus da startup Buser
Ônibus da startup Buser. Foto: Rodrigo Ghedin/LABS
Tecnologia

Um rolê de Buser, a “Uber dos ônibus” investida pelo SoftBank

Em pleno feriado de Carnaval, testei o serviço da startup que recebeu pelo menos R$ 300 milhões em rodada liderada pelo conglomerado japonês

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O conceito de economia colaborativa ou compartilhada já está bem difundido. Quando menos popular, a maneira mais fácil de explicá-lo era com uma analogia: “tipo a Uber”. A empresa de caronas por aplicativo se tornou paradigma para outras tantas que lhe sucederam e é, até hoje, usada por palestrantes e empreendedores de inovação paradoxalmente parados no tempo. 

Mas nem todas as startups são exatamente “tipo a Uber”. No Carnaval, experimentei uma dessas: a Buser, uma plataforma que conecta passageiros interessados em fretar um ônibus com um destino comum. Tipo um “Uber de ônibus”? Quase isso. E a ideia está atraindo investidores.

Em outubro do ano passado, a startup foi alvo de uma rodada de investimentos comandada pelo SoftBank. O valor total não foi revelado, mas a empresa disse que usaria pelo menos R$ 300 milhões para investir em sua expansão pelo Brasil. Além do conglomerado japonês, investidores anteriores da startup, como o Grupo Globo e os fundos Canary, Valor Capital e Monashees, também participaram desta rodada.

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Como a Buser funciona

Do ponto de vista do passageiro, a Buser lembra qualquer outra empresa tradicional de ônibus. De diferente, apenas o fato de que a maioria dos ônibus que operam na plataforma oferece somente poltronas do tipo leito e que, antes da viagem, o motorista distribui chocolates KitKat enquanto passa aquelas orientações padrões, do tipo “coloque o cinco de segurança”. 

O principal diferencial da startup se revela muito antes da viagem, na hora de passar o cartão de crédito. É o preço da passagem, que chega a ser 60% mais barato em alguns trechos que o dos ônibus de linha tradicionais. Ou melhor, o preço do rateio: fundamentalmente, trata-se de um grupo de pessoas fretando um ônibus e dividindo a fatura. Sendo assim, quanto mais gente, mais barata a viagem fica. 

No meu caso, a viagem de Curitiba a São Paulo, ida e volta, em uma poltrona leito, ficou em R$ 87 — promocionalmente, a Buser não cobra a volta na primeira compra. Paguei efetivamente R$ 89, mas como mais gente confirmou a viagem posteriormente, o rateio ficou mais barato e acabei com R$ 2 e uns quebrados na minha conta Buser.

Tivesse ido por uma empresa de ônibus convencional no mesmo tipo de poltrona, dias da semana e horários de partida, teria de ter desembolsado R$ 328, diferença de 277%. Sem a promoção da volta gratuita, a diferença teria sido de 84,2%. 

Viagem feita entre Curitiba e São Paulo durante o feriado de Carnaval. Foto: Rodrigo Ghedin.

A Buser não opera os ônibus, ela conecta passageiros a empresas de transporte que realizam fretamento, uma modalidade já regulamentada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Com os ganhos logísticos e a garantia de que os ônibus só rodam cheios, a Buser consegue praticar os preços menores e, garante a startup, sem prejudicar a remuneração das empresas parceiras. 

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A desvantagem do modelo é a limitação de rotas e a incerteza. Os ônibus só ganham a estrada se houver um número mínimo de passageiros e a confirmação da viagem pode chegar em até 48 horas antes do horário de partida. Caso contrário, a Buser simplesmente avisa os passageiros que não rolou a viagem e devolve o dinheiro.

Trechos populares, como o meu no Carnaval, costumam lotar e serem confirmados com bastante antecedência. Ainda assim, a viagem de volta só foi confirmada uns poucos dias antes da partida — altas emoções! Se ela não tivesse atingido a o mínimo de passageiros, boa sorte para mim na tentativa de encontrar passagem sobrando nas empresas tradicionais. 

Dada essa condição, ainda não são muitos os destinos operados pela Buser, embora o número esteja crescendo. Em 2021, a startup almeja transportar 30 mil passageiros por dia. 

A, digamos… “falta de compromisso” parece ser uma característica do negócio. Até o KitKat entregue antes da viagem está “sujeito a disponibilidade” — apesar disso, recebi o doce nos dois trechos. Outro mimo que depende de disponibilidade é o kit de travesseiro e cobertor. Esse eu não ganhei, e teria sido útil na viagem de ida, quando parecia que estava viajando em um freezer tão gelado estava o interior do ônibus. Nem mesmo a caracterização dos ônibus é garantida. Na volta, vim em um desses, sem a identidade visual da Buser.

A startup diz, em entrevista por e-mail, que a caracterização é uma opção, não remunerada, que os parceiros têm, e que a adesão “se deve exclusivamente ao reconhecimento por parte dos operadores do impacto positivo que a Buser tem para a geração de renda aos seus funcionários e suas famílias”. 

Não exatamente uma “Uber dos ônibus”

Servir como plataforma que conecta passageiros e veículos é uma definição que contempla tanto Uber quanto Buser. Até mesmo o discurso de que não são empresas de transporte, mas de tecnologia, é comum a elas. Mas há uma diferença fundamental entre os dois serviços: a relação com os motoristas.

Na Buser, eles são profissionais contratados pelas empresas parcerias. “Diferente da Uber”, explica a startup, “os motoristas parceiros da Buser não são autônomos, e sim profissionais ligados às empresas familiares parceiras, seguindo todos os critérios de descanso, bem como os direitos trabalhistas regulares”. 

A Buser já conta com mais de cem empresas parceiras e nenhuma desistência até o momento. Para se tornar parceira da startup, a empresa de fretamento é inspecionada e deve ter na garagem “veículos em excelentes condições de proporcionar conforto e principalmente segurança aos passageiros, além de contarem com as autorizações e vistorias dos órgãos fiscalizadores em dia”.

Todas as viagens são monitoradas em tempo real, incluindo a velocidade dos ônibus. A startup diz estar testando algumas ferramentas de segurança para os passageiros, como alarmes que soam quando alguém desconecta o cinto de segurança e permanece sentado. 

Imprevistos são cobertos por dois seguros que contemplam passageiros e motoristas, um da Buser e outro da empresa de fretamento parceira. Um centro de operações 24 horas da Buser, que atende até por WhatsApp, ajuda a acelerar o atendimento. 

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Problemas com a Justiça

Um dos traços marcantes dos modelos disruptivos é a judicialização criada pelas incumbentes do setor. No final de fevereiro, às vésperas do Carnaval, a Justiça Federal de Santa Catarina atendeu a um pedido do Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de Santa Catarina (SETPESC) e proibiu a Buser e a 4bus, outra startup baseada no mesmo modelo, de operarem no estado, sob pena de multa diária de R$ 5 mil em caso de descumprimento. 

No despacho, a juíza Ana Luísa Schmidt Ramos, da 1ª Vara da Fazenda Pública de Florianópolis, viu indícios de concorrência desleal nas startups. O fato de o site oferecer itinerários definidos, compra de passagens individuais e opção de somente ida, contradizem o argumento de que elas intermediam fretamentos. De lá: 

“Com essa diferença de preço – o preço ofertado pela Buser representa aproximadamente 30% da tarifa praticada legalmente – , fica claro que as requeridas Buser e Lucretur capturam a clientela do transporte regular de passageiros, sem se submeterem aos ônus impostos a estas. As requeridas podem escolher livremente roteiros e horários atraentes economicamente, e praticar com os passageiros preços significamente inferiores, já que não precisam arcar com itinerários e horários restritos, frequências mínimas, isenções ou redutores de tarifas.” 

Importante notar, nesse sentido, que no momento a possibilidade de criar trechos para reunir grupos de passageiros interessados neles está desabilitada na plataforma da Buser, de acordo com a documentação do serviço. Com isso, fica bem difícil distinguir, do ponto de vista do passageiro que acessa o site ou baixa o aplicativo da Buser, diferenças práticas em relação a uma companhia de ônibus tradicional, que opera linhas pré-definidas. 

De seu lado, a Buser se defende dizendo que seu sucesso ocorre por ela ser “uma alternativa a um mercado concentrado” e que “tem sido combatida exclusivamente por grupos de interesse ligados aos grandes grupos que dominam o setor”. Certa ou errada, apesar do impedimento legal no estado catarinense, o site da Buser segue oferecendo viagens com destinos de lá, como Florianópolis, Balneário Camboriú e Blumenau. Questionei a assessoria se isso não caracterizaria descumprimento da decisão da Justiça, mas tomei um olé na resposta: 

A Buser cumpre todas as decisões judiciais imediatamente após a citação por parte do Poder Judiciário. Temos em nossa breve história um volume grande de ações promovidas por empresas do setor tradicional de transportes e nosso retrospecto tem sido bastante positivo, tanto na esfera Federal, quanto Estadual. 

A seu favor, lembra a startup, em 2019 o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou seguimento a uma ação movida pela Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati), que pedia a suspensão de decisões favoráveis à Buser deferidas pela Justiça Federal em vários estados. A Advocacia Geral da União (AGU) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) foram favoráveis à Buser nesse caso. 

Esses conflitos judiciais apenas postergam o inevitável. O que a startup faz é otimizar viagens com a ajuda da tecnologia, algo que provavelmente já é feito pelas empresas de ônibus tradicionais, que por sua vez não conseguem chegar a preços similares por esbarrarem em obrigações legais e compromissos com linhas deficitárias. Toda otimização enfrenta barreiras no mundo real, e quando alguém precisa pegar um ônibus para aquela cidadezinha pequena, servida por apenas uma linha duas vezes por semana, fica bem mais difícil “otimizar” a rota para que ela não dê prejuízo. Nesses casos, não tem Buser. 

Por ora, a Buser segue se expandindo, ganhando rivais como a já citada 4bus e, para os passageiros, sendo um ótimo negócio, desde que o trecho a ser percorrido exista na plataforma. O KitKat, embora um mimo bobo – e sujeito à disponibilidade –, não faz mal.