Escritório da Quinto Andar, unicórnio brasileiro focado em compra e venda de imóveis
Escritório da Quinto Andar, unicórnio brasileiro focado em compra e venda de imóveis. Foto: Divulgação/QuintoAndar
Tecnologia

O que esperar do ecossistema latino-americano de startups em 2020

Maior desafio para fazer frente aos mais de US$ 3 bilhões em investimentos recebidos no ano anterior, será encontrar mão de obra qualificada

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O Brasil viu cinco unicórnios nascerem em 2019 e acabou por alçar o ecossistema latino-americano a um novo patamar. Desde setembro de 2017, quando a argentina Despegar estreou na Nasdaq e virou a primeira startup da região a ser avaliada em mais de US$ 1 bilhão, a América Latina foi berço de 17 unicórnios (veja a cronologia completa aqui). Nem bem 2020 começou e a startup brasileira de compra e venda de imóveis Loft também entrou para esse seleto clube, segundo alguns veículos de comunicação (a empresa não confirma oficialmente o valor).

linha do tempo com os unicórnios da América Latina

Foram US$ 2,6 bilhões de fundos de capital de risco investidos na região somente no primeiro semestre do ano passado, segundo a Associação de Investimento de Capital Privado na América Latina (LAVCA, em inglês). Estimativas da plataforma de inovação Distrito com base nos dados da LAVCA dão conta de que a região fechou 2019 com algo em torno de US$ 3,5 bilhões em investimentos em startups.

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Lendo algumas análises de empreendedores, investidores e consultores desse ecossistema publicadas nas últimas semanas, fica claro que, embora este ano prometa novos recordes em investimentos, haverá também uma busca dessas empresas por consolidação local, novos mercados externos e, o mais importante, sustentabilidade financeira.

Alguns especialistas têm até deixado a figura mitológica do unicórnio de lado para usar o termo Rabbit, acrônimo em inglês para Real Actual Business Building Interesting Tech (algo como Negócios reais construindo tecnologias relevantes), e insistir no fato de que até mesmo SoftBank e cia estão trocando o estilo cash burn de grandes promessas a la WeWork por empresas lucrativas desde o início. Alguns avanços regulatórios recentes podem dar uma ajuda à América Latina nesse sentido.

Em entrevista ao LABS, o fundador da aceleradora Startup Farm e do Dínamo, grupo voltado para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à inovação, além de atual head de desenvolvimento da startup de inteligência de localização In Loco, Felipe Matos, explica que, recentemente, as principais economias da América Latina também tiveram avanços regulatórios tanto no que diz respeito à desburocratização e à própria estruturação legal de startups quanto de áreas-chave do sistema financeiro para a acomodação do segmento que mais atrai investimentos na região: fintechs.

Na Argentina, diz Matos, foi construído um marco legal batizado de Ley PyME, que modernizou algumas questões burocráticas relacionadas às pequenas e médias empresas, embora não tenha sido pensada especificamente para startups de tecnologia. “No México, o governo criou uma série de incentivos para a atração de investidores de capital de risco. E por lá, também se iniciou a discussão de pagamentos instantâneos. A autoridade monetária mexicana lançou recentemente uma regulação para que todos os meios de pagamento do país aceitem um padrão único de código QR, como forma de acelerar a inclusão de mais pessoas no sistema financeiro”, explica Matos.

No Brasil, ecossistema mais maduro da região, o Marco Legal das Startups deve, finalmente, ser enviado pelo Executivo ao Congresso até fevereiro. Há mais de dois anos em discussão, o marco propõe uma série de mudanças legais em prol das startups brasileiras, entre elas uma revisão da Lei das SAs, que inclui um novo regime de Sociedade Anônima Simplificada no país. 

Esse regime é mais apropriado às startups porque protege o patrimônio do investidor, que se torna acionista e não sócio da empresa. 

“Estamos conscientemente no melhor momento do ecossistema de inovação no Brasil, com surgimento acelerado de novas startups, e o crescimento das existentes em ritmo acelerado alavancadas pelo ritmo acelerado da entrada de capital internacional no país”, diz o presidente da Associação Brasileira de Startups (AbStartups), Amure Pinho.

Também no Brasil são esperadas as primeiras fases de implantação dos sistemas de open banking e de pagamentos instantâneos em 2020. No caso do open banking, porém, ainda há dúvidas entre especialistas sobre se o país será capaz de definir um padrão para o sistema até o fim deste ano, conforme prometeu o presidente do Banco Central brasileiro, Roberto Campos Neto.

“Espero estar errado, assim teremos mais inovações mais rapidamente, mas acredito que levará mais alguns anos para o open banking ser efetivamente implementado, em função da complexidade do sistema e dos grandes players envolvidos”, observa Matos.

De fato, o arcabouço legal e a estrutura técnica para colocar o open banking de pé no Brasil são complexos. Pelo conceito do open banking, os dados financeiros pertencem ao cliente, que pode escolher compartilhá-los com qualquer instituição financeira, para que ela ofereça a ele serviços mais baratos e melhores. Bancos tradicionais, digitais e fintechs poderão oferecer toda uma gama de produtos não só aos seus próprios clientes, mas aos clientes das outras instituições, de crédito pessoal mais barato devido a uma avaliação de perfil mais profunda e ágil a uma série de serviços.

Isso já acontece hoje, pontualmente, em algumas parcerias entre bancos e fintechs no país. É o que acontece, por exemplo, com quem usa o aplicativo de organização financeira GuiaBolso e o autoriza a acessar dados do banco onde tem conta para monitorar suas finanças ou mesmo com as pequenas empresas clientes do Banco do Brasil que abrem seus dados na instituição para o sistema da startup de gestão financeira ContaAzul.

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Com o sistema de open banking estabelecido, porém, tais arranjos de interoperabilidade financeira não dependerão de acordos entre A e B. Com um sistema e um padrão estabelecidos, bastará as organizações cumprirem critérios e terem as condições técnicas exigidas para se conectar a esse sistema e ter acesso a uma série de clientes de outras organizações financeiras.

Isso acontece porque, na prática, o open banking é feito por meio de Interfaces de Programação de Aplicação (APIs, na sigla em inglês), portanto os dados não são, efetivamente, visíveis a qualquer um dos atores do sistema e nem podem ser compartilhados livremente.

Há uma consulta pública aberta pelo Banco Central até o próximo dia 31, e tanto bancos quanto fintechs estão participando ativamente da construção do open banking brasileiro.

Talentos: o maior desafio das startups continua em 2020

Neste ano, as startups que receberam os investimentos recordes de 2019 terão de crescer em meio à falta de mão de obra qualificada. Das 15 profissões que devem ter mais vagas em 2020, segundo o LinkedIn, 12 estão na área de tecnologia. 

“Para garantir que não haja um ‘apagão técnico’ nos próximos anos, é preciso investir em capacitação para as habilidades do futuro e políticas de incentivos. A inovação só acontecerá em um ambiente preparado e favorável”, disse a investidora-anjo e participante do programa Shark Tank Brasil Camila Farani em post no LinkedIn na semana passada. 

Para vencer esse desafio, as startups latino-americanas não estão só apostando em jovens talentos. Estão também contratando profissionais maduros, vindos de setores tradicionais, para cargos de alto escalão; abrindo escritórios e centros de tecnologia para a atração de talentos em outras regiões (caso da Loggi, que abriu escritório em Lisboa, e da Creditas, que está em busca de 100 profissionais para seu novo endereço em Valencia, na Espanha); e fazendo aquisições de olho em talentos (caso do decacórnio Nubank, que comprou a consultoria Plataformatec de olho na equipe de 50 engenheiros de software da empresa, e do Gympass, que comprou a startup inteligência artificial americana Flaner).