Foto: Cortesia/Koy
Tecnologia

A única latino-americana na lista das lideranças em IA da IBM em 2020

Karla Capela, CEO e fundadora da Koy, criou uma plataforma que utiliza a tecnologia de IA da IBM, o Watson

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A IBM reconheceu 35 mulheres líderes de negócios em 12 países que estão usando inteligência artificial para impulsionar a transformação, o crescimento e a inovação em diversas indústrias por meio do prêmio Women Leaders in AI. Nesta edição de 2020, advogada brasileira Karla Capela, CEO e fundadora da startup Koy, que usa inteligência artificial e machine learning para otimizar processos em escritórios de advocacia e departamentos jurídicos, é a única latino-americana da lista. Na edição de 2019, a primeira do prêmio da IBM, havia três latino-americanas na lista: Fernanda Gonzalez, digital channels manager do Santander Río na Argentina; Claudia Ignacio, diretora executiva de experiência do consumidor do Banco Banorte, no México; e Walkiria Schirrmeister Marchetti, CIO do Bradesco, no Brasil.

Natural de Recife, Capela formou-se em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco em 2002. Ela começou a carreira trabalhando na área de Direito do Consumidor na empresa dos pais, que tinham um plano de saúde odontológico de cobertura nacional. Mais tarde, tornou-se diretora executiva e sócia do escritório Raimundo & Capela, especializado na área de seguros. Foi nesse escritório, em 2017, que surgiu a ideia que levou a advogada ao prêmio da IBM.

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Uma das seguradoras clientes do escritório disse que mudaria a forma de remuneração: ao invés de pagar de forma continuada, mensalmente, a empresa passaria a pagar pelos serviços em duas parcelas, uma no começo (na entrada do processo na Justiça) e outra no fim do processo. Isso exigiria um esforço a mais do escritório para acompanhar com mais assiduidade as movimentações de cada processo. Mas, no dia a dia dos advogados brasileiros, é justamente essa parte burocrática a que toma mais tempo dos profissionais, já que o país tem 200 sistemas de acompanhamento judicial diferentes.

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A advogada decidiu que precisava unificá-los por meio de uma interface fácil de usar, não apenas em termos de linguagem de programação, mas também de nomenclatura, já que cada sistema tem uma diferente. Foi quando ela trouxe a tecnologia de IA da IBM, o Watson, para dentro do jogo. Usando o Watson, Capela criou uma plataforma de gerenciamento legal batizada de “Norma“, em alusão à norma jurídica.

Na prática, a Norma reconhece e classifica ações, programa os próximos passos dos processos judiciais e acompanha os casos à medida que eles se movem no sistema. Enquanto um advogado leva cerca de duas horas para ler um processo, a Norma faz isso em seis segundos. Resultado? Segundo Capela, os clientes da Koy conseguem ser até quatro vezes mais produtivos e aumentar suas receitas em até 30%.

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Koy é carpa em japonês, um peixe que nada em contrafluxo. Na startup, o cliente não vai atrás da informação, ele é levado a ela, segundo Karla.

Eu acho que todas as empresas que geram um impacto efetivo com o trabalho delas começam de um problema real. De uma dor existente, e não de uma oportunidade de negócio. (…) Eu escolhi o caminho da gestão, que virou uma tecnologia, e fiz essa escolha porque conhecia a necessidade (dos clientes)

Karla Capela, CEO e fundadora da startup KOY.

Com a plataforma, a advogada conta que já conseguiu desbloquear R$ 330 milhões de um cliente, em dois meses. Se o mesmo trabalho fosse feito sem o auxílio da Norma, Capela estima que seriam necessários três anos.

Ela conta que mesmo os processos físicos, de sistemas que ainda não estão totalmente digitalizados, podem ter suas movimentações acompanhadas pela Norma. Já os processos digitalizados, conseguem ter seus documentos importados pela plataforma e gerenciados diretamente nela. “E somos a única empresa do mundo que faz isso”, afirmou. 

“A gente está antecipando uma tendência natural. É o que está acontecendo agora com a área médica, com a aviação, com meios de pagamento. E tem que acontecer com a área jurídica. A IA é a tecnologia emergente que vai dominar os próximos 20 anos, e a COVID-19 antecipou isso”, diz Capela. Ela acredita que a crise do novo coronavirus, assim como no caso de outras tecnologias, vai acelerar a adoção da IA por empresas e profissionais.

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A advogada sentiu nos próprios pulmões os impactos da COVID-19. Há duas semanas, chegou a ser internada pela falta de ar causada pela doença. Agora está se recuperando em casa. Hoje, a Koy atende mais de 100 usuários e tem sob sua guarda 20 mil processos.

A startup tem apenas 11 funcionários e todos estão em trabalho remoto, que deve ser mantido perpetuamente, ainda que a empresa mantenha sua sede na Praia de Boa Viagem, em Recife.

Para ela, o prêmio da IBM mostra que a empresa está no caminho certo lançando uma lupa sob iniciativas vanguardistas. A Koy foi levantada com recursos próprios (cerca de R$ 3 milhões), e ainda não recebeu nenhum investimento externo. Isso pode mudar com o reconhecimento da IBM.