Erich Beting, da Máquina do Esporte.
Erich Beting, da Máquina do Esporte. Foto: Divulgação
Tecnologia

O futuro do esporte está na tela do celular

Em entrevista ao LABS, Erich Beting, fundador da Máquina do Esporte, falou sobre as tendências do setor quando o assunto é negociação de direitos de transmissão, tevê paga e streaming

Read in english

Conhecida mundialmente como a terra das grandes estrelas do futebol e lar de um público apaixonado e fanático em clubes, o Brasil vem lidando com muitas mudanças nos negócios esportivos. Com o crescimento contínuo do acesso à Internet e do poder de consumo da classe média, o número de telefones celulares em todo o país explodiu e, seguindo uma tendência mundial, a audiência da TV vem caindo ano após ano.

O público que estava acostumado a assistir jogos e campeonatos inteiros pela TV agora está se acostumando a seguir seus ídolos nas mídias sociais, assistindo a partidas em seus smartphones e, dia após dia, a televisão é cada vez mais considerada um plano B para entretenimento esportivo. Por outro lado, à medida que o comportamento do consumidor muda, os acordos e direitos de transmissão de campeonatos ainda estão nas mãos de poderosas empresas de mídia que, em geral, priorizam a transmissão ao vivo na tevê aberta e/ou fechada.

LEIA TAMBÉM: Americanos gastam um quinto do tempo em frente à tevê com plataformas de streaming

Neste momento, um impasse na negociação dos direitos de transmissão do Brasileirão com Coritiba, Red Bull Bragantino e Athletico Paranaense pode deixar de fora do Premiere, até então o pacote mais completo de jogos do torneio, de fora, 28% dos jogos do Brasileirão (ou 108 das 380 partidas da competição). 

Para aprofundar o debate sobre essas mudanças, o LABS conversou com Erich Beting, fundador da Maquina do Esporte e um dos jornalistas mais influentes do país. Essas mudanças acelerarão o mercado e levarão a transmissão a um novo nível de penetração no país? Ou as empresas que mantêm os direitos de transmissão continuarão sendo as donas de todos os tipos de consumo quando se trata de esportes?

Nem um nem outro. Para Beting, a primeira mudança real acontecerá nos dispositivos onde produtores, emissoras e plataformas colocarão seu conteúdo: os móveis. “A tendência é fazermos uso da plataforma móvel para consumir, replicando o conteúdo na tela da TV.”

Como você enxerga o futuro da tevê a cabo frente ao crescimento do streaming?

No Brasil, as operadoras de TV a cabo acabaram se tornando empresas de transmissão de dados. As fusões TVA e Vivo/Telefónica e Net/Claro mostraram o caminho adotado por aqui. A TV a cabo vai migrar o conteúdo do cabo para o streaming paulatinamente, sem ocasionar perda de receita para o operador. A Globo criar o GloboPlay não interfere no negócio da Net/Claro porque o consumo de dados continua a gerar receita. Quem fatura mais é a Globo. O problema é para quem atua apenas como operadora de TV, como a Sky. Esse perde assinantes e não tem onde recuperar a receita.

LEIA TAMBÉM: DAZN e o potencial do streaming esportivo no Brasil

Como a fusão FOX-Disney e a aprovação da aquisição da Time Warner pela AT&T mudam o jogo no Brasil, principalmente quando pensamos que o Esporte Interativo, da Turner, transmite jogos pela TNT da Time Warner? 

Acho que a maior mudança é que a briga pelo streaming tem diversos players. Antes, a briga era separada. O produtor de conteúdo brigava com outros produtores para ter mais audiência. E as operadoras duelavam para ter o assinante pela melhor oferta. Agora, a Amazon concorre com a Disney, que concorre com a Globo, que concorre com o Facebook. São muitos donos de informação brigando pela atenção do consumidor. 

A maior diferença é que tem muita gente endinheirada para brigar pelos direitos dos principais eventos esportivos. E isso ficará ainda maior quando houver maior popularização do consumo de banda (larga) e as telecons puderem brigar pela aquisição de direitos de transmissão de jogos.

O streaming é o futuro do evento esportivo ao vivo?

Acho que, quando houver uma popularização plena do consumo de conteúdo pelos dispositivos móveis, naturalmente será. Assim como a internet já substituiu o meio impresso no consumo da informação.

A tendência é fazermos uso da plataforma móvel para consumir, replicando o conteúdo na tela da TV.

Que oportunidades plataformas como o DAZN tem no horizonte quando o assunto é a compra de direitos de transmissão de competições mais relevantes no país? 

Acho que ainda é preciso haver mais consumo de plataformas de streaming para o hábito das pessoas de fato mudar. E, enquanto isso não acontecer, o negócio continuará concentrado nas grandes emissoras de TV. O acerto do DAZN com o Paranaense é o melhor exemplo disso. O campeonato “caiu no colo” da plataforma. Para conseguir mudar de fato o panorama, o DAZN terá de contar com isso num primeiro momento. A falta de interesse da TV em comprar o evento. Se isso não acontecer, não será possível ver uma mudança de fato.

LEIA TAMBÉM: DAZN fecha acordo para estrear no e-Sports no Brasil

Os times brasileiros estão preparados para negociar em termos mais “reais”?

Eles podem até estar mais bem preparados tecnicamente, mas o maior problema é terem fôlego financeiro para brigar por uma melhora sensível de pagamento de valores mais altos. Os clubes ainda estão muito dependentes do dinheiro de curto prazo. E isso trava qualquer negociação de médio ou longo prazo (como a de direitos de transmissão).

Ou seja, não é possível peitar as emissoras por total falta de fôlego financeiro para negociar de igual para igual. Tecnicamente, no entanto, os clubes estão mais bem preparados para entenderem os valores de cada plataforma.

Como fica essa disputa quando olhamos para ligas, entidades e canais da tevê a cabo também investindo em suas próprias plataformas de streaming? 

Acho que as plataformas próprias das entidades tendem a ser produtos para atenderem a um nicho específico. As competições vão usar o streaming para ganhar o exterior, enquanto os clubes vão investir em produtos que atendam os torcedores para além das competições das quais participam. 

Já as TVs, ao investirem em suas próprias plataformas, atendem à mudança que o consumidor exige, de receber o conteúdo em novas plataformas. Isso não muda muito a disputa pelos direito de transmissão, já que a remuneração de uma empresa de mídia é sempre maior que aquela direta do consumidor, pelo menos no cenário atual. Lá na frente isso pode mudar, como agora, depois de 10 anos de Netflix, começa a acontecer na indústria do entretenimento.

E-sports: quem entende do mercado diz que o streaming e os free games deram um novo boom ao setor. Qual a sua avaliação? Como isso deve evoluir no mercado de comunicação e direitos?

O streaming é a plataforma que fez o e-Sports se tornar um negócio milionário. Foi a partir da transmissão pela internet que os jogadores e equipes se tornaram populares entre os mais jovens. Assim, ele acabou impulsionando a indústria como um todo. Já que o jovem consome o streaming para e-Sports, por que não levar as outras atividades para a plataforma? Soma-se a isso a consolidação do modelo de consumo do streaming com assinatura mensal, como é o caso do Netflix, e o negócio ganha escala.