Tecnologia

2019: Uma odisséia de investimento em startups na América Latina

De 2017 para cá, 15 dos 315 unicórnios existentes – startups avaliadas em US$ 1 bi ou mais – surgiram na região. Saiba mais na primeira matéria da nova série Brazilian Rocket Ships

O termo unicórnio foi cunhado pela investidora americana Aileen Lee, da Cowboy Ventures, para um grupo especial de empresas de tecnologia que poderiam atingir o valor de mercado de US$ 1 bilhão ou mais – o número foi escolhido aleatoriamente, provavelmente porque parecia ser algo difícil de ser alcançado à época. Em um artigo escrito em 2013, Lee estimou que apenas 0,07% das startups realizariam esse feito. Na ocasião, havia apenas 39 unicórnios no mundo. Hoje, segundo a plataforma CB Insights, há 315 unicórnios.

De 2017 para cá, 16 deles surgiram na América Latina (confira a cronologia), segundo levantamento do LABS em fontes como a Distrito, plataforma brasileira de inovação, a LAVCA (sigla em inglês para Associação para Investimento de Capital Privado na América Latina) e a própria CB Insights. Um desses novos unicórnios latino-americanos, o Nubank entrou para o seleto grupo dos decacórnios (empresas avaliadas em US$ 10 bilhões ou mais) neste ano.

Originalmente, pelo termo cunhado por Lee, só seriam unicórnios empresas de capital fechado, mas esse critério foi mudando ao longo tempo. No caso do LABS, foram consideradas unicórnios empresas de capital fechado que receberam aportes e declararam um valor de mercado de US$ 1 bilhão ou mais a partir disso; empresas que fizeram IPO e passaram a ter valuation de unicórnio com isso; e também empresas adquiridas por outras empresas que atingiram esse valor de mercado com a operação. 

Especialmente na América Latina, números como esses parecem destoar da situação de baixo crescimento econômico e incertezas políticas dos países da região. Mas, na realidade, não há nenhuma contradição entre uma coisa e outra. Startups têm mesmo a característica de se descolar do restante de um setor ou economia pelo seu caráter disruptivo e altamente escalável.

“O unicórnio é apenas uma consequência de a gente estar resolvendo um grande problema. E eu nem preciso bater na tecla de que a América Latina é não só um mercado gigante, de 600 milhões de pessoas, com PIB significativo, mas um lugar de problemas homéricos”, observa o sócio da Redpoint eventures, Rodrigo Baer.

“Ter startups nesse nível de valuation [dos unicórnios] também mostra para o mundo inteiro que a América Latina e o Brasil estão amadurecendo e que vale a pena investir aqui”, complementa Daniel Quandt, que coordena o Distrito Dataminer, a base de dados da Distrito.

Uma característica em comum entre os unicórnios latino-americanos ou mesmo as super startups da região próximas de alcançar esse status é o jogo de cintura para atrair investimentos. 

“Trabalhando com mapeamento de startups e venture capital, a gente vê que não adianta a startup ter uma boa ideia, ter um bom modelo de negócio, se ela não for capaz de estabelecer os relacionamentos necessários para atrair capital e tornar a escalabilidade de seus negócios possível. Essas empresas têm isso. E quanto mais se capta, mais fácil fica captar mais recursos porque elas vão ganhando a confiança do mercado”, avalia Quandt.

Daniel Quandt, que coordena o Distrito Dataminer, a base de dados da Distrito. Foto: Divulgação.

Do outro lado, o dos investidores, a disponibilidade cada vez maior de capital de risco, principalmente nas fases seed e pré-seed também tem a ver com o movimento global recente de queda de juros – inclusive na América Latina – que levou famílias e organizações em geral a buscarem maior retorno em aplicações de maior risco, justamente como as startups.

“Há um tempo a gente falava que havia um seed funding gap no Brasil, e eu acho que em termos de volume financeiro ainda tem, mas a quantidade de players que estão nesse estágio [anjos, aceleradoras, pré-seed e seed] aumentou muito (…) Uma das razões para existir esse gap eram os juros brasileiros muito altos. Não valia a pena você correr um risco tão grande, por uma prazo tão grande, porque esses investimentos são de cinco, sete, dez anos. Agora a realidade é outra”, diz Bruno Ceschin, CEO da Jupter, plataforma de inovação que é o braço do Founder Institute no Brasil e que virou parceira da Bossa Nova Investimentos, maior gestora de micro venture capital do país, neste ano.

Há algumas semanas, Ceschin ajudou a validar a 3ª versão do Mapa do Ecossistema de Investidores de Startups no Brasil, feita pela MSW Capital / Fundo BR Startups, que mostra o crescimento de players não só na ponta dos unicórnios, com rodadas de série B em diante, mas também nas fases mais iniciais de investimento.

Foto: Divulgação.

Hoje, se o empreendedor for bom e estiver fazendo algo que faça sentido, ele consegue dinheiro e suporte.

Bruno Ceschin, CEO da Jupter.

Nesse contexto, a América Latina, embora tenha recebido menos de 1% dos US$ 254 bilhões em investimentos de venture capital no mundo em 2018, segundo dados da Americas Market Intelligence (AMI), tem visto o volume total desses investimentos e também dos aportes, individualmente, crescer a cada ano.

De acordo com a LAVCA, os cinco principais investimentos de venture capital (VC) e corporate venture capital (CVC) da região em 2018 ultrapassaram US$ 100 milhões por rodada e somaram US$ 1,2 bilhão, mais do que o total investido em todo o ano de 2017. Já em 2018, o total registrado foi de US$ 1,9 bilhão em investimentos, com a rodada de US$ 500 milhões captada pela Movile para o iFood sendo a maior de todas.

Só a estreia do SoftBank já faz de 2019 um recorde

Os números do LAVCA para este ano só devem ser divulgados em março do ano que vem, mas só as apostas de estreia do conglomerado japonês SoftBank na região já igualaram o número do ano passado e indicam que 2019 terá um novo recorde.

Em abril, o fundo foi responsável pelo maior investimento já feito em uma startup da América Latina: US$ 1 bilhão (cerca de R$ 4 bilhões) na plataforma de delivery colombiana Rappi. Na sequência vieram aportes ou exclusivos ou liderados pelos japoneses na plataforma de atividade física Gympass, na fintech Creditas, na plataforma de aluguel de imóveis QuintoAndar, e na plataforma brasileira de artigos para a casa MadeiraMadeira, todos num total de US$ 891 milhões (R$ 3,65 bilhões). Sem contar a aquisição de ações equivalentes a 8,1% do Banco Inter, na qual o grupo japonês investiu R$ 760 milhões (cerca de US$ 187 milhões).

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Os números do Brasil, ecossistema mais maduro da América Latina, também dão a tônica do que este ano deve ser para a região. Só nos primeiros seis meses de 2019, os fundos de capital de risco (juntando aqui as modalidades de venture capital e de private equity) já investiram R$ 7,4 bilhões (cerca de US$ 1,8 bilhão) em 115 startups do país, segundo a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap) e da consultoria KPMG.

Até o fim do ano, as duas organizações acreditam que o total de investimentos, nas duas modalidades (VC e PE), deve chegar a R$ 14,8 bilhões (US$ 3,6 bilhões) no país, 9% a mais do que em 2018.

“Acho que estamos no caminho certo para essa próxima fase de evolução do mercado. Fala-se muito em valuations esticados e uma possível redução na disponibilidade de capital nos próximos anos, o que com certeza comprometeria esse próximo passo, já que a evolução das startups para o late stage exige rodadas maiores de capital. Mas vejo a mão de obra como gargalo fundamental no Brasil, principalmente na parte tecnológica”, avalia Pietro Bonfiglioli, CEO da inovação Fisher, venture builder com foco em fintechs. 

Pietro Bonfiglioli, CEO da inovação Fisher Venture Builder.

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Nunca foi tão caro ser um unicórnio e América Latina está entrando nessa corrida

Segundo o último Unicorn Report da PitchBook e da plataforma de inovação Plug and Play, que desembarcou neste mês de setembro no Brasil em uma parceria com a Elo, os 187 unicórnios ativos nos Estados Unidos no primeiro semestre de 2019 levantaram mais de US$ 600 bilhões em valor de mercado. As estreias na Bolsa de Zoom, Pinterest, Lyft e Uber estão nessa conta. Parece muito? O número é, na verdade, um pouco menor do que o pico alcançado em 2018, de US$ 603,3 bilhões.

Para quem acompanha a inovação de perto, essa pequena diferença indica que há uma consistência cada vez maior no ecossistema norte-americano, o mais maduro do mundo, e que um novo recorde pode ser atingido no fim deste ano.

“Prevemos mais unicórnios em regiões emergentes, como a região Ásia-Pacífico, mas o centro de gravidade permanece principalmente no norte da Califórnia. Portanto, espero que a maior produção de unicórnios esteja localizada em torno desse centro de gravidade. Agora, no entanto, o método será diferente “, afirma Saeed Amidi, CEO e fundador do Plug & Play Tech Center, no relatório.

Segundo Amidi, as próximas empresas gigantes de tecnologia “serão uma pura disrupção dos negócios tradicionais por meio da aplicação da tecnologia, em vez de serem essencialmente impulsionadas por um novo tipo de tecnologia ou mercado.”

Essa disrupção em atividades hoje tradicionais exige capital. Muito capital. No primeiro semestre de 2019, o aporte médio recebido por startups que alcançaram o status de unicórnio foi de US$ 126,1 milhões nos EUA. O segundo financiamento após esse status tem ficado entre US$ 130 milhões e US$ 175 milhões, segundo o Unicorn Report. Ou seja, nunca foi tão caro ser um unicórnio.

Embora a disponibilidade de recursos para escalar startups nunca tenha sido tão alta, a forma de avaliar o retorno desses investimentos, no entanto, pode, sim, estar mudando. 

Cada vez mais, espera-se que negócios mais consistentes – aqueles que já atingiram ou estão próximos de atingir o breakeven – atraiam mais os olhares dos investidores, do que o clássico modelo disruptivo que começa com uma ótima ideia mas que parece não deslanchar nunca. Os novos unicórnios da América Latina, segundo os especialistas ouvidos pelo LABS, estão no primeiro grupo, ao lado de Zoom (que já estreou com lucro em abril deste ano na Nasdaq, avaliada em R$ 15,9 bilhões) e Pinterest (que fez seu IPO no mesmo dia da Zoom, com resultados já próximos do lucro, e avaliada em US$ 12,8 bilhões). Já Lyft e Uber, estão, por ora, no segundo grupo.