Sociedade

Por uma cabeça: a inusitada eleição presidencial no Uruguai

Nem o Uruguai, o soturno território progressista da América do Sul estava a salvo de uma reviravolta social

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“Chega de corridas, acabou a jogatina. Um final renhido eu não torno a ver. Mas se algum potro for garantido no domingo, eu me jogo inteiro, que eu vou fazer?”. Em 1935, Alfredo de La Pêra (nascido em São Paulo, naturalizado argentino) e Carlos Gardel (nascido não se sabe certo onde, versões variam do Uruguai à França) cunharam um dos tangos que se tornaria um dos mais importantes da história do gênero musical argentino. Tanto que foi ao som de por Una Cabeza, um paralelismo entre o amor e as corridas de cavalos, onde a sorte joga um grande papel, que Al Pacino e Gabrielle Anwar protagonizaram uma das cenas mais emblemáticas do cinema moderno, no filme Perfume de Mulher.

Nos dias que antecederam o segundo turno das eleições do Uruguai, 24 de novembro, um domingo, dizia-se na Argentina que uma romaria levaria, ao todo, mais de 40 mil uruguaios de volta ao país para ajudar na apertada disputa entre os candidatos à presidência Daniel Martínez, de centro-esquerda (Frente Ampla), e Luis Lacalle Pou, de cento-direita (Partido Nacional).

No Uruguai, a exceção de outros país, o voto não pode ser feito em representações no exterior, tendo de acontecer presencialmente. Por isso, esperava-se que, em um estupor patriótico, alguns dos 300 mil a 600 mil (de aproximadamente 3,5 milhões) de uruguaios que vivem fora do país, viriam atender ao pedido de Martínez.

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Pepe só queria morrer de velho

O pacato Uruguai, cuja população continua a mesma por décadas, e envelhecendo, vinha sendo governado há 15 anos por uma coalização de esquerda, cujo maior símbolo era o carismático ex-presidente Jose “Pepe” Mujica, que havia inclusive, no ano anterior, se aposentado. Conhecido por seus discursos progressistas e informais, e por liderar um país liberal, Mujica se tornou uma espécie de popstar da esquerda. Embora, jamais reconheça, era tido como o líder utópico daqueles que não acreditam na linha mais conservadora da política.

Dadas as circunstâncias, ele teve de voltar atrás, desistindo da aposentaria, aos 84 anos que, segundo ele, usaria para “morrer de velho”. No entanto, Pepe não conseguiu concretizar seus planos mórbidos e terminou por concorrer como senador (e ganhar) para ajudar sua colisão na eleição mais apertada da história moderna do Uruguai.

Uma eleição “atípica”

No dia 24 novembro de 2019, terminada a eleição no país, as pesquisas de “Boca de Urna” começaram apontar uma distância quase ínfima entre os dois candidatos e até algo, matematicamente, inusitado: um empate técnico entre eles. Por volta 8h30 da noite os jornalistas da televisão uruguaia já pareciam não saber o que dizer, desconsertados. As 21h, 22h, 23h, a situação era estranha. No discurso dos candidatos, algo de vitória de Lacalle e um “ainda não perdemos” de Martínez. No fim do dia coube à Corte Eleitoral declarar que, naquele dia, não haveria decisão.

O medo do incêndio

O continente vinha de uma onda de levantes que havia mostrado ao mundo que a América Latina está qualquer coisa menos que dormida e que, nem mesmo o Uruguai, de tradição republicana e serena, poderia estar livre de uma eclosão social.

O fogo poderia sim se espalhar

O Chile havia derrubado o mito de prosperidade econômica sem inclusão social e, contrariando qualquer projeção, se tornado um dos países mais violentos da região. As eleições na Bolívia haviam demonstrado a importância de uma apuração prolixa e rigorosa e, muitos diriam, da alternância de poder. O continente parecia estar equilibrando-se na ponta de pêndulo sob uma corda bamba.

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Apesar de um primeiro turno pacífico, e democrático, analistas internacionais começavam apontar para a greta criada pela divisão no paisito, como é carinhosamente chamado pelos uruguaios. Nem o Uruguai, o soturno território progressista da América do Sul estava a salvo de um estupor social, diziam especialistas.

É que, até então, o Uruguai sustentava, segundo a The Economist, o melhor índice democrático da região. Talvez por isso a disputa foi aos pênaltis. Dias antes da eleição, a própria companheira de Mujica, Lucía Topolansky (vice-presidente até março de 2020), que não é dada a alarmismos, chegou a confessar a um jornal argentino que esperava que “o incêndio sul-americano não fosse trasladado ao Uruguai”.

“No momento, Argentina e Uruguai são os dois países mais estáveis da América do Sul. Espero que isso está acontecendo, embora ainda não tenhamos uma perspectiva histórica suficiente para conhecer suas causas com profundidade; esse incêndio generalizado do continente não se espalhe para o sul do sul. Bolívia, Chile Colômbia, Venezuela e Equador estão em colapso. O Peru está sem parlamento”, lamentou.

Pura matemática

Por uma cabeça muitos cavalos ganham ou perdem corridas e milhões são ganhos ou perdidos em apostas. “Quantos desenganos, por uma cabeça”, diz o tango que faz referência a gíria hípica onde, muitas vezes, uma cabeça de cavalo, é o parâmetro usado para determinar o ganhador de uma corrida.

E foi essa cabeça que terminou por decidir a eleição presidencial no Uruguai: uma medição matemática, já que a Corte Eleitoral do Uruguai não se pronunciou ainda sobre a vitória de Lacalle, mas que já foi reconhecida por seu opositor e líderes de Estado por todo o mundo.

Pendiam sobre eles o escrutínio de pouco mais de 3 mil votos. A título de ilustração, um vereador, em São Paulo, nas últimas eleições tinha que alcançar um mínimo de cerca 12 mil votos se quisesse ser eleito. Seriam esses três mil votos “a cabeça de cavalo” que separa Martínez da presidência.

Apesar de declarar que os resultados eram “irreversíveis”, os números finais serão anunciados apenas no fim de semana. Um cuidado que, apesar de se tratar do republicano Uruguai, chama a atenção, principalmente se considerarmos o que aconteceu na Bolívia. Não podemos colocar todos os países da região no mesmo balaio, mas tampouco podemos desqualificar os levantes em massa concomitantes em diversos países da zona.

Estamos entre governos progressistas e conservadores, alguns eleitos “por una cabeza”, outros em vitórias avassaladoras. É assim que, hoje, galopa a América.