Multidão esperando pelos resultados das eleições na Praça de Los Andes, Buenos Aires.
Sociedade

Volver

É a partir da definição desta palavra que a colunista do LABS explica a apreensão em torno do resultado das eleições argentinas

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Uma rápida pesquisa nos dicionários disponíveis no Google sobre definições da palavra voltar (termo volver em espanhol) apresenta os seguintes resultados: verbo transitivo. 1. Dar volta a volver, virar; pôr do avesso. 2. Mostrar ou apresentar pelo lado ou face oposta. 3. Dar em troco. verbo intransitivo. 4. Regressar. 5. Tornar a vir. 6. Reaparecer, tornar. 7. Replicar, responder; dar volta ou voltas; tornar a fazer. 8. Mudar de rumo. 9. Fermentar segunda vez; toldar-se, turvar-se.10. Retroceder. 11. Reincidir. 

São 21h do domingo, 27 de outubro, e eu não posso voltar (volver).

Há duas horas estou exprimida em uma multidão, cujo fim meus olhos não logram alcançar. Há duas horas não consigo abrir os braços, ou virar de lado.  Com os dedos recorro à tela do celular, usando o sinal intermitente de internet, para tentar falar com meus editores do outro lado do mundo. Eu tento ser sucinta. “Não consigo sair daqui”, digo pelo aplicativo. A mensagem não vai. Eu não vou.

Praça de Los Andes, bairro de Chacarita, Bueno Aires, horas antes da divulgação do resultado das eleições presidenciais argentinas de 2019.

Eu havia marcado, com a fumaça das churrasqueiras dos ambulantes que vendiam pão com linguiça, as saídas do grande corredor que se armou na Avenida Dorrego. Quando, na ponta dos pés, não podia vê-los, conseguia visualizar a coluna de fumaça. Uma coluna de fumaça, uma saída para alguma praça, onde podia ou não ter espaço. Todos eles, por alguma razão, tinham se posicionado nessas pequenas entradas da praça de Los Andes, bairro de Chacarita, em Buenos Aires, que é cercada por barras de ferro. Era uma rota para voltar. Mas não conseguia me mover. 

“Eu posso ver o piscar das luzes à distância que estão marcando meu retorno. São as mesmas que iluminaram, com seus pálidos reflexos, muitas horas de dor. E, apesar de não querer voltar, sempre se retorna ao primeiro amor”. O autor dessas palavras é, em tese, um brasileiro, Alfredo Le Pera, que nasceu em São Paulo, mas se naturalizou argentino, assim como o  cantor e seu parceiro Carlos Gardel (que também não nasceu na Argentina, mas se tornou um dos rostos mais emblemáticos do país), que imortalizou essa letra com sua voz.

Trata-se de uma das letras de tango mais fortes e emblemáticas do ritmo e discorre sobre um retorno, com um misto de saudade, ansiedade, melancolia e amor.

Eu vinha pensando na letra desse tango desde quando passei pela imigração, uma semana antes, voltando a Buenos Aires após muitos meses e depois de ter vivido quase uma década no país, para cobrir as eleições presidenciais. A volta agridoce, com as melhores memórias, e também, com a dor de ter ido. Mas eu estava voltando. Volver. 

Quatro anos e cinco dias antes, domingo, dia 27, quando se celebrava outra eleição presidencial na Argentina, eu estava nas aforas da casa de show Luna Park, nas cercanias do bairro de Puerto Madero, produzindo, para um canal de televisão brasileiro, o encerramento de campanha do candidato Daniel Scioli, apoiado por Cristina Kirchner. Ele terminou perdendo para Mauricio Macri, atual presidente.

“Vamos a volver, ehhhh vamos a volver”, gritavam partidários de Scioli.  Eram centenas de milhares de militantes que prometiam voltar, ainda que Scioli perdesse, o que, de fato, aconteceu. 

Agora, imprensada por uma multidão que não parava de crescer, eu voltava a escutar esse mesmo cântico multiplicado. Sem confirmações oficiais, pois entendo que nem as autoridades locais conseguiam mensurar a multidão que se derramou sobre as cercanias do Comitê Eleitoral de Alberto Fernández, posteriormente eleito o próximo presidente da Argentina, em primeiro turno, diziam que um milhão de pessoas estavam no bairro de Chacarita, em Buenos Aires.

Enquanto eu tentava manter-me de pé, eu sentia a maré de gente me movendo sem que eu tivesse o menor controle de meu corpo, me arrastando.

Confesso que, em algum momento, eu rezei para que nada saísse do protocolo na apuração e que, conforme demonstravam todas as pesquisas eleitorais, Fernández fosse anunciado presidente. 

Com o passar das horas, a multidão, que não parava de crescer, foi ficando mais inquieta. No telão, figurões da chapa diziam que estavam de olho na contagem e que “cobravam responsabilidade do atual governo”. Foi como jogar gasolina no incêndio, já que a multidão, de certa forma, chegava a desconfiar das autoridades eleitorais que, apesar de independentes, estavam sob o guarda- chuva do governo do opositor.

Os argentinos estavam voltando com Cristina Kirchner, a ex-presidente, como vice-presidente, e o ex-chefe de gabinete dos Kirchner na cabeça da chapa, Fernández, como presidente.

A Argentina viveu 12 anos de Kirchnerismo. Primeiro com Néstor Kirchner e, posteriormente, dois mandatos com Cristina. Agora que eles estavam voltando, eu me lembrava daquela tarde no Luna Park e daquelas palavras: voltaremos. 

Verbo transitivo. 1. Dar volta a volver, virar; pôr do avesso. 2. Mostrar ou apresentar pelo lado ou face oposta. 3. Dar em troco. verbo intransitivo. 4. Regressar. 5. Tornar a vir. 6. Reaparecer, tornar. 7. Replicar, responder; dar volta ou voltas; tornar a fazer. 8. Mudar de rumo. 9. Fermentar segunda vez; toldar-se, turvar-se.10. Retroceder. 11. Reincidir. 

A Argentina que o Fernández herda é hoje o país com uma das mais altas inflações do planeta, com cerca de 40% chegando à linha da pobreza até o fim do ano, com terremotos cambiais constantes, desigualdade, recessão e todo tipo de mazela financeira de que se tem notícia. Pode-se argumentar perpetuamente quem veio primeiro “o ovo ou a galinha”, se esses índices são resultado também de governos passados ou se foram culpa da gestão de Macri.

É certo que são os piores em muitos anos. A decadência é visível a olho nu. 

Isso tudo já era sabido, antes mesmo das eleições. A situação econômica argentina não é novidade e foi determinante nos resultados de domingo.

Ao voltar ao caminho que o kirchnerismo afirma ser o correto para a Argentina, o que está para se constatar no futuro é se “voltar” significará “regressar”, ou “dar o troco” ou “mudar o rumo”, ou “reincidir”, e se essa palavra significará “um regresso ao primeiro amor”, como a melancolia de Le Pera.