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Sociedade

O general em seu labirinto: Grupo de Puebla e a renúncia de Evo Morales

Colunista do LABS conta como foi cobrir a cúpula do grupo de líderes progressistas da América Latina em um momento de tensão política

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Ele tinha “a melancólica certeza de que havia de morrer na cama, pobre e nu, e sem consolo da gratidão pública”, assim descrevia os últimos momentos de Simón Bolívar o escritor colombiano Gabriel García Márquez, no livro O General em seu labirinto, publicado no final da década de 1980. 

Eram essas palavras que davam voltas na minha cabeça, na noite do último domingo (10), quando eu voltava de uma longa jornada de cobertura da Cúpula do Grupo de Puebla, formada por líderes progressistas da América Latina, realizada em Buenos Aires, entre os dias oito e dez desse mês. 

Estivemos todo o fim de semana em uma espécie de berçário de jornalistas, onde nos sobrealimentavam com bolinhos e mini sanduiches, além dos litros de café, na sala adjacente aonde presidentes e ex-presidentes conversavam sobre os novos rumos da América Latina.

Entre eles (alguns estiveram todos os dias, outros apenas brevemente), estavam o recém-eleito presidente da Argentina Alberto Fernández, o ex-presidente Jose “Pepe” Mujica, o ex-presidente colombiano Ernesto Samper, a brasileira Dilma Rousseff e o paraguaio Fernando Lugo. E também estavam ex-candidatos a presidência, como o chileno Marco Enríquez-Ominami e o brasileiro Fernando Haddad, além de Daniel Martinez, que disputará, em segundo o turno, a presidência do Uruguai no próximo dia 24 de novembro. Ainda circulavam e falavam pelo Grupo personalidades como o líder do partido dos Trabalhadores Aloizio Mercadante e o ex-chanceler brasileiro Celso Amorim, entre outros. 

No porão do hotel Emperador (a Cúpula ficava num luxuoso subsolo e, como todo subsolo, carecia de janelas), que havia se tornado um reduto da esquerda latino-americana desde a vitória de Fernández, na Avenida del Libertador, em Buenos Aires, estivemos horas e horas esperando que algum deles nos trouxesse notícias do nosso paciente: o continente sul-americano. Eram tantas as reviravoltas que, às vezes, não sabíamos por qual país perguntar primeiro.

Eu tentava organizar meu pensamento: comecei buscando respostas para a convulsão social no Chile, acompanhando uma colega de profissão que escrevia com mais assiduidade sobre o tema. Dividimos momentos de horror ao receber as fotos dos próprios feridos nas manifestações. Por mais objetivas que fossemos, não era difícil ficarmos com os olhos cheios de água com os celulares inundados por relatos tristes, sem lado político. Às vezes eram apenas transeuntes que terminavam cegos por estar no lugar e hora errados. Isso ia minando o nosso humor naquele porão de luxo. 

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Tivemos, no entanto, um grande momento de descontração. Com as bocas entupidas de cupcakes, corremos pelo corredor que dava para a sala da Cúpula, pois chegava o recém-eleito presidente argentino Alberto Fernández. Eu subi numa cadeira para fazer uma pergunta e fui defenestrada por um jornalista mal-humorado que dizia que o assento era dele, enquanto outros fotógrafos, também do avesso, mandavam a gente abaixar o celular.

Eu e uma outra jornalista gritamos, quase juntas, a mesma coisa para Fernández: “Uma palavra, por favor, sobre o Lula”. Nosso grito foi tão forte que ele se virou e disse apenas “Libre” com o gesto de “L” na mão direita

Uma jornalista conseguiu esgueirar-se e gravar o momento no qual se escutam nossos gritos de gralha no fundo e, por ironia do destino, foi graças a essa ousadia que, os mesmos fotógrafos que nos hostilizaram, conseguiram a imagem do dia. Terminamos a tarde rindo dessa malandragem com copos de cerveja.

Estávamos no auge da celebração quando começaram a circular os rumores de que o presidente boliviano, Evo Morales, havia embarcado em um avião, sem destino certo. Era o fim da nossa festa. 

Improvisamos uma pequena redação no apartamento que eu havia alugado na capital portenha. Os celulares eram inundados de pedidos de ajuda e vídeos aterrorizantes vindos da Bolívia.

Eu comecei a me lembrar que, na minha segunda leitura do General em seu Labirinto, eu o havia largado pela metade porque ele me causava uma enorme angústia, quando deveriam ser minhas férias.

O livro de Márquez trata de um retrato incomum do “libertador” das Américas. O general que havia “libertado” parte do continente da colonizadora Espanha, aparece como figura fragilizada, doente e muitas vezes quase morta.

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“José Palácios, seu servidor mais antigo, o encontrou boiando nas águas depurativas da banheira, nu e de olhos abertos, e pensou que tinha se afogado. Sabia que esta era uma de suas muitas maneiras de meditar, mas o estado de êxtase em que jazia à deriva parecia de alguém que já não era deste mundo,” lê-se na página onze do livro. José Palácios era o fiel mordomo que acompanha Bolívar. Traído, isolado, Bolívar já contava com poucos apoiadores. 

Às dez da noite, mesmo cansada, eu não conseguia dormir em Buenos Aires. Ficava imaginando se Evo Morales ia acabar linchado na Bolívia. Eu não estava comparando, ao meu ver, Bolívar a Evo Morales, mas não tirava da cabeça uma das cenas do livro em que Bolívar passeava por algum povoado colombiano e, não lembro, se alguém cuspia ou atirava fezes nele.

Era apenas a mesma angústia que o livro me dava. Longe de mim comparar Evo Morales a Bolívar

Mas, dentro das minhas referências, jazia este retrato da decadência. O primeiro líder indígena da América do Sul estava em fuga. Lembrei-me de que, quando estive na Bolívia, onde cruzei a fronteira atravessando o país até La Paz, podia ver claramente a divisão racial: colonizadores e colonizados.

Isso não fala nem bem nem mal de Morales. No entanto, eu já me perguntava se as insurgências, que há semanas cobriam o continente, não tinham um começo lá trás, quando os europeus se alçaram pelo mar e terminaram nas Américas. Agora a mesma bíblia dos jesuítas aparecia na mão de opositores de Morales para se sobrepor aos costumes indígenas locais. Não sei se estava sugestionada pelo período que havia passado cobrindo os incêndios na Amazônia, onde havia notado certa unidade nas reivindicações dos indígenas.

Eu tendo a não acreditar em coincidências. Como pode um continente, com processos internos tão diferentes, convulsionar quase todo de uma vez?

Evo Morales havia, é certo, estirado até onde pode a democracia. Uma diversidade de processos internos diferentes faz da Bolívia um país difícil de analisar. Enquanto isso, eu acompanhava meus colegas jornalistas discutindo passionalmente por uma questão semântica: era ou não um golpe de estado? A terminologia dividia o jornalismo e a política exterior de muitos países. 

O certo é que Evo Morales atendeu quase que plenamente a agenda neoliberal do continente, chegando a ser elogiado pelo Fundo Monetário Mundial (FMI). Foi o único líder progressista da região a comparecer à posse do presidente Jair Bolsonaro. Contava com índices econômicos impecáveis, um dos maiores crescimentos da região, menores taxas de desemprego, etc. Mas quis perpetuar-se no poder, seja com apoio popular ou por determinação pessoal. Em 2003, o país passava por uma convulsão parecida a que vemos hoje e foi Evo Morales, com seus defeitos e qualidades que, por muitos anos, unificou o país. Agora, o cenário retrocedia àquele caótico momento de mais de uma década atrás. 

Ele não era o único general no labirinto. Na América Latina, de repente, as linhas da democracia se tornaram mais difusas e o caminho de saída mais hermético. Muitos países se encontram com líderes oscilando entre a tirania e a legitimidade. Resta saber se o labirinto é uma luta civilizatória, política ou econômica, e quem é o general.