O novo presidente Alberto Fernández
O presidente Alberto Fernández tenta fechar acordo com detentores de títulos da dívida. Foto: Shutterstock
Sociedade

Na Argentina de Fernández, será preciso prestar atenção nas entrelinhas

Nem a transição, nem os primeiros anúncios, parecem denotar o drama espelhado no tango que a Argentina costuma trilhar

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Quem diria que, ao final de 2019, estaríamos chamando a Argentina de pragmática e o Chile, de imprevisível? Que a Venezuela estaria aparentemente tranquila e que parte do continente estaria em convulsão? E que na Argentina tudo pareceria caminhar com gradualismo?

Nem a transição, nem os primeiros anúncios, parecem denotar o drama espelhado no tango que a Argentina costuma trilhar.

Alberto Fernández se apresentou à sociedade argentina, e ao mundo, como um homem comum, ponderado, que dirige seu próprio carro a sua posse, sem suntuosidade.

Para entender o discurso que Fernández deu no Congresso, é preciso ter em mente O Contrato Social, obra do século 18 de Jean-Jacques Rousseau, o escritor que acreditava em um pacto entre indivíduos para criar uma sociedade.

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Para Rousseau, o Estado é uma associação e não uma submissão. Este foi o cerne do pensamento de Fernández (pelo menos no papel). Ele tem, supostamente, quatro anos para comprovar esta tese. O novo presidente argentino jurou que vai trabalhar pela união do país, fomentando o fim da brecha ideológica.

Café com Cuba, almoço com os EUA

No entanto, muita coisa passou desapercebida durante a posse da última terça-feira (10). Costumam dizer que o diabo está nos detalhes, e nesse contexto, também está nos planos da nova gestão.

Os jornais fizeram uma festa com a saída da delegação dos Estados Unidos do recinto quando chegou a de Maduro. Mas, em seu primeiro dia como presidente, Fernández tomou café com os representantes de Cuba e almoçou com os dos EUA.

Os mercados esperavam com “ansiedade” como ele trataria a questão da dívida externa. Temos que avaliar essa “suposta” expectativa com pinças.

Fernández está em contato permanente com representantes do Fundo Monetário Mundial (FMI). E não só com eles, mas também com outros detentores da dívida argentina. Não há um plano secreto de default. Nunca houve. Desde que se candidatou, ele vem falando candidamente sobre isso.

O que é invisível é o resultado do contato constante com aqueles que apostaram em cavalo que não ganhou a corrida, o do antigo presidente Mauricio Macri.

Os últimos repasses do FMI aconteceram já em um contexto eleitoreiro. Em Washington, sabiam que isso era uma aposta. No entanto, os kirchneristas nunca foram, ao contrário do que se pensa, maus pagadores. Alarmistas vão falar de calote, mas Alberto disse que será preciso paciência com a Argentina, mas que o país pretende pagar o que deve.

A lógica dele também passa batido para quem não quer ver. É preciso colocar a economia de pé, incentivar o consumo, as pequenas e médias empresas, e diminuir a enorme carga que pesa sobre o argentino comum, nas tarifas básicas como gás, luz, água e transporte. Tudo isso é necessário para que o país cresça e recupere suas reservas.

Surpresa de um Nobel

Aliás, o Nobel de economia, Paul Krugman, recentemente, se disse surpreendido com a recorrência de erros da gestão de Macri, comparadas à crise de 2001. Para o economista, foi um erro primário endividar-se em moeda estrangeira. Ele acredita que isso impossibilitou uma série de reformas necessárias. Para ele, Macri não pôde ou não quis aguentar o peso social de fazê-lo.

Quando assumiu o poder em 2015, Macri agiu sem gradualismo ao tirar os subsídios das tarifas dos serviços básicos. Na época, conheci argentinos que pagavam contas de gás de R$ 30 e passaram a pagar R$ 3 mil. Uma pujante classe média baixa foi empurrada à pobreza.

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Isso não quer dizer que a fórmula de Alberto dará certo. Apenas que, na Argentina, asfixiar o consumo não funcionou.

Vale dizer que Macri dirá que não teve tempo, nem espaço de manobra, após de 12 anos de kirchnerismo. Muito das políticas de Macri ficaram à espera de investimentos estrangeiros que não chegaram. Ele fez escolhas. Certas ou erradas, restará à história julgar.

Quando estive em novembro na Argentina, para cobrir as eleições, fiquei impressionada com a deterioração das condições de vida da classe média baixa. Muitos com três empregos informais para manter um aluguel; jornadas de sete dias de trabalho; 16 horas diárias de labuta; tudo isso para correr atrás de uma galopante inflação. Isso, sim, era visível aos olhos.

Era previsível

Era esperado que os mercados não reagissem bem ao dia seguinte da posse. Nem poderiam, ainda que as tratativas do país continuem normalmente com mercados neoliberais, Alberto precisou falar ao público interno.

Evocou símbolos nacionais como o “Nunca mais” contra a ditadura militar argentina, a soberania sobre as Ilhas Malvinas e territórios insulares, falando ao sindicalismo (fortíssimo no país) e prometendo ser o mais argentino dos argentinos.

Mas, nem de perto, houve sangria na Bolsa de Buenos Aires. Martín Guzmán, o novo ministro da Economia, apareceu no fim do primeiro dia, sem grandes anúncios, nenhum sismo macroeconômico.

O fator Cristina

Outra especulação interna era a de como seria o papel de Cristina Kirchner como vice. Aqui, mais uma vez, algumas pistas ficaram invisíveis a muitos olhos.

Cristina governou o país por dois mandatos, foi primeira dama por um. Ela é reconhecida como uma mulher controladora e centralizadora, que aprendeu a falar mais alto em um mundo de homens e a comprar brigas grandes. Para alguns, é uma mulher desagradável, para outros uma patriota.

Sobre ela pesam mais de uma dezena de processos judiciais, e o fardo de uma filha doente em Cuba (sem foro privilegiado, Cristina teme que ela seja alvo dos ataques opositores se voltar à Argentina). O filho é deputado federal e tem imunidade e vai muito bem, obrigada.

Pareceu “rancor” a cara de Cristina ao cumprimentar Macri. Não quis usar a mesma caneta que ele e dizem, deu as costas a ex-vice-presidente cadeirante. Esse pode ser o papel de Cristina: zelar pelas feridas que não podem ser fechadas, atendendo a uma militância mais hardcore, que não está disposta a se aproximar dos eleitores de Macri. 

Talvez ninguém jamais saberá ao certo os meandros da discussão que definiu a chapa Alberto-Cristina. Na época, muito se falou sobre o rechaço a Cristina, algo que poderia jogar os números para baixo. No entanto, uma vez mais, temos que voltar à delicada situação familiar da viúva Cristina e, principalmente, a sua situação judicial.

Lawfare

Uma pista pode estar em uma das batalhas que o novo presidente jurou que irá travar. Ele prometeu, em seu discurso, fazer uma reforma judicial no país.

Alberto Fernández é advogado e acadêmico, embora tenha passado boa parte da vida ao lado de Cristina e do falecido Néstor Kirchner. Tanto ele, como ela, vem se queixando do que chamam de lawfare, ou Guerra jurídica.

O fato é que, apesar de ser apenas especulação, podemos levantar circunstancialmente que este fator pode ter tido um papel no acordo tácito de governabilidade entre Alberto e Cristina.

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Globalismo

Enquanto isso, Alberto fala aos militantes moderados e ao mundo. O novo presidente pôs panos quentes na relação com o Brasil em seu discurso, não negou que buscaria outros mercados e usou a palavra globalismo e não globalização, mostrando estar antenado e disposto a relações exteriores pragmáticas. Disse que não dará as costas ao Mercosul, mas não prometeu exclusividade. De fato, antes mesmo de ser eleito, visitou boa parte da região e abriu uma forte frente com o México, para negócios.

O cidadão Alberto

Alberto, esse nome comum, quase como qualquer outro. Alberto, o primeiro presidente argentino a dirigir seu próprio carro até sua posse. No entanto, quantos cidadãos comuns argentinos vivem no exclusivo bairro de classe média alta de Puerto Madero?

“Quando meu mandato terminar, a democracia argentina cumprirá 40 anos de vigência ininterrupta. Nesse dia, gostaria de poder demostrar que Raúl Alfonsín tinha razão. Espero que juntos possamos demonstrar que, com a democracia, se cura, se educada e se alimenta. Vamos nos levantar e começar nossa marcha novamente”, disse.

Nas últimas palavras do discurso no Congresso, que durou cerca de uma hora, Fernández citou um ex-presidente argentino, e mais uma vez se colocou no lugar do homem comum, aquele que se levanta para trabalhar e lutar todos os dias. Para saber se essas palavras soarão demagógicas ou visionárias, teremos que esperar quatro anos. Porém, muito não estará visível aos olhos na nova Argentina. Será preciso ler nas entrelinhas.