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Sociedade

O Brasil vai escapar da ebulição na América Latina?

Para os especialistas, risco maior de protestos está na percepção sobre a melhora da economia pela população

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Não bastassem nossos desafios internos, como uma política ainda extremamente polarizada e insegurança jurídica que afugenta investimentos, além das mazelas da criminalidade e do desemprego, o Brasil tem se visto rodeado de convulsões sociais que incendeiam países vizinhos e podem servir de alerta.

Em 2013, a partir de um protesto que começou despretensiosamente contra o aumento de passagens de ônibus em São Paulo, os brasileiros saíram às ruas aos montes. As manifestações se espalharam pelas cidades e logo a pauta se tornou difusa: eram todos contra tudo. O movimento só perdeu força depois que os atos viraram baderna, com a ação violenta dos chamados black blocks.

Por aqui, eram pano de fundo das ruas lotadas a crise econômica, marcada pela retomada da inflação em ritmo mais acelerado e pelo escalada dos juros, e o desgaste de um projeto político que se perpetuava no poder havia quatro mandatos presidenciais. Os meses seguintes àquela eclosão social desembocaram na evolução da Operação Lava Jato, uma operação de combate à corrupção que colocou na cadeia políticos e empresários graúdos, e o impeachment da então presidente, Dilma Rousseff.

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Agora, seis anos depois, Bolívia, Venezuela e Chile – só para citar três exemplos –, cada qual com sua realidade específica, estão mergulhados em momentos delicados da vida política, social e econômica. Longe de mim a pretensão de igualar os cenários, mas os movimentos guardam traços semelhantes, pelo menos no que diz respeito às incertezas e aos temores sobre o que está por vir.

A América Latina parece ter entrado em ebulição. Para o cientista político Márcio Coimbra, coordenador do curso de pós-graduação de Relações Institucionais e Governamentais das Faculdades Mackenzie em Brasília, as crises em países do continente não são somente uma questão de “narrativa” política. A situação, acrescenta o professor, é concreta e não deve ser ignorada.

“Existem fagulhas também no Peru, no Equador e na Nicarágua, que podem entrar em combustão a qualquer momento”, diz Coimbra. Na Colômbia e mesmo na Argentina, porém, ele acredita que há menos chance de o quadro institucional se desestabilizar: no primeiro país, a justificativa para esse diagnóstico está na “alternância de poder dentro de uma mesma casta há anos”; no segundo, a tendência de uma “transição cordata” do liberal Mauricio Macri para o kirchnerista Alberto Fernández é encarada como sinal de tranquilidade.

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No Brasil, Coimbra acredita que tudo dependerá do desempenho da economia no restante do governo de Jair Bolsonaro. “Lula [o líder da esquerda brasileira, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro] saiu da cadeia e Bolsonaro continua apostando na polarização. A economia será o ponto-chave. Se a população não perceber o crescimento econômico, talvez o que aconteceu em 2013 possa se repetir. E, assim como naquele ano, podemos saber como começa, mas não como termina um movimento dessa magnitude”, argumenta Coimbra.

O cientista político Creomar de Souza, CEO da Dharma Political Risk, pontua que é preciso diferenciar turbulências de processos mais continuados do ponto de vista econômico. No entender dele, o cenário complica quando a relação entre representantes e representados azeda de tal modo que compromete a normalidade política e institucional – o que, friso eu, quase que necessariamente ocorre quando a economia não vai bem.

Na Bolívia, exemplifica Souza, a persistência de Evo Morales em permanecer no poder de qualquer jeito fez com que a população não enxergasse em suas lideranças as percepções de compromisso almejadas. Já no Chile, as manifestações tiveram início com universitários reclamando do aumento do preço do metrô na capital Santiago e acabaram se transformando em atos – com milhões de pessoas nas ruas – muito mais amplos, a partir do clamor por um modelo econômico considerado mais justo.

Por ora, Souza não vê indicativo de que a ebulição latino-americana chegue ao Brasil de maneira concreta. Para ele, no entanto, falta ao governo brasileiro adotar uma postura que deixe isso bem claro ao mercado e a investidores. “Há um problema: muito do que se analisa sobre a região é falho em termos de estabelecer as reais diferenças. O momento exige um discurso menos polarizado e uma interlocução mais aguda com o mercado para mostrar que o Brasil não está nessa mesma linha de ação”, sustenta.

Falta a nós – governo e sociedade – a capacidade de analisar o que acontece ao lado sem a obrigatoriedade de comparação com viés ideológico e com paixões políticas domadas pela racionalidade. A grama do vizinho, mais verde ou não do que a nossa, muitas vezes é a extensão do nosso jardim.