Os tênis da jornalista Gabriela Antunes sujos de fuligem.
Sociedade

Amazônia: do paraíso de Borges ao inferno de Dante

A colunista do LABS conta o que viu nos estados do Acre e Rondônia, ao acompanhar uma equipe de tevê americana

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O escritor argentino Jorge Luis Borges costumava dizer que o “paraíso era uma espécie de biblioteca”.  Leitor voraz, Borges se imaginava cercado de livros. Esse era seu “Éden”. Sem vocação para mateiro, Borges não se referia à biblioteca viva que é a Floresta Amazônica. Borges imaginava palavras, frases e poemas.

Na Amazônia, o paraíso biológico, podemos sonhar com 10% a 15% da biodiversidade presente hoje no mundo, 40% das florestas tropicais do planeta, centenas de etnias indígenas, cuja cultura, idioma e costumes ainda carecem de pesquisa, e com água, o fluído da vida que deve, infelizmente, virar commodity futuramente.

Estamos falando de insetos nunca encontrados, tribos que vivem isoladas e plantas que podem alimentar e curar mazelas e doenças que atingem a humanidade. Trata-se de uma biblioteca 3D, viva, em transformação, cujo alcance de vida é tão longínquo que a consciência humana talvez ainda não esteja pronta para processar. E esse nosso limite de compreensão humana pode significar sua sentença de morte.

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No último dia 24 agosto, desembarquei em Rio Branco, no Acre, onde está parte da Amazônia brasileira em chamas. Fui acompanhando uma equipe de televisão norte americana, na condição de jornalista. Nem bem pousamos, a cabine do avião se encheu de fumaça. Questionado sobre o que via nos radares, o piloto respondeu tratar-se da fumaça vinda da Bolívia, cuja fronteira está a 200 km de distância de Rio Branco. Mas ainda havia incêndios urbanos e florestais por todos os lados.

A jornalista e colunista do LABS Gabriela Grosskopf Antunes, no primeiro dia na região amazônica, logo depois de ver o tamanho da devastação da floresta com os incêndios.

As labaredas, nesse dia, circundavam o perímetro do aeroporto e a cidade parecia uma grande defumadora. Em dez minutos, todos cheirávamos a churrasco. Era “dantesco”.

Já no hotel, um conhecido cientista da região veio nos visitar. Eu achei, enquanto conversávamos, que eu havia feito uma analogia bastante infeliz a outras tragédias de grandes proporções. Para minha surpresa, ele afirmou que não era muito diferente, guardadas as devidas dimensões. Em um aspecto específico, para a saúde humana, ele concordava comigo: os efeitos à saúde da fumaça agiam de forma imediata e acumulativa. Ou seja, as consequências eram nocivas e irreversíveis para aqueles que eram expostos à ela, uma tragédia sim para a saúde humana e meio ambiente.

Bombeiro tentando evitar que um dos focos de incêndio se alastre.

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Durante uma semana percorremos por terra e por ar, voando em pequenos aviões e nos deslocando pelas aforas do Acre e Rondônia. Conversamos com todas as bocas que queriam falar: caciques, índios, representantes do governo, ribeirinhos, cientistas, bombeiros, representantes de ONGs, pequenos produtores, vítimas do fogo e ruralistas. Nosso intuito era dar a eles a maior autonomia possível para que expusessem suas experiências e visões com intuito de fortalecer a autonomia jornalística de nosso material.

Na foto, Gabriela conversa com o chefe Tashka yawanawa.

Vi índios lutando por suas reservas, animais desabrigados pelo fogo, ribeirinhos tentando remar em rios repletos de toras de arvores derrubadas, clareiras na floresta do tamanho de algumas cidades, fogo, fumaça, mas também a pujança do agronegócio, com famílias que subsistem dessa atividade.

Em algum ponto da viagem, lembrei-me de uma frase atribuída ao jornalista norte-americano Truman Capote que dizia algo no sentido de “que quando Deus nos dá um dom, também nos entrega um chicote para o autoflagelo”. Nossa maior vocação, o tesouro que recaiu em boa parte de nosso território nacional, havia se transformado, em parte, em nossa desgraça. Consistia em uma arca de tesouro, pesada, cobiçada por tantos piratas, com milhares de espécies de animais, plantas e etnias e que, talvez, fosse demasiado pesada para o país carregar.

Fazenda Recreio, nos arredores de Rio Branco, Acre.

A Floresta Amazônica está atrelada a nossos umbigos, onde fica nosso cordão umbilical, extensão de carne que marca nossas origens. Viemos dessa casa que inclui esse tapete verde, acolchoando a nossa identidade.

A meu ver, neste sentido, é menos frutífero saber se o governo vigente é Nero tocando harpa e deixando Roma incendiar-se, ou se o ponto em que estamos é o resultado, em efeito acumulativo, de pequenas, médias e grandes tragédias políticas, econômicas e ambientais.

Já não podemos mais fugir de questões que passam por sustentabilidade econômica, ou seja, como desfrutar desse tesouro mantendo-o vivo. Com a proximidade das chamas, já não devemos nos dar ao luxo de ser morosos. Consiste em decidir se iremos beber desse conhecimento com a floresta em pé, com infindas possibilidades, com o apoio da ciência, tecnologia e sustentabilidade, ou se vamos colocar a floresta no chão, apostando em um modelo agroexportador e de mineração.

A diferença entre esses dois modelos, tema controverso, consiste, de maneira pragmática, em apenas uma: se optarmos por mantê-la, podemos repensar seu propósito quantas vezes a discussão se pronunciar. Por outro lado, se a derrubarmos, não poderemos nunca mais repensar esse modelo.

Seria imprudente, e contra produtivo, apontar dedos e soluções simples para uma situação tão complexa. Voltei da Amazônia com mais perguntas do que respostas. Dúvidas densas e húmidas como a mata fechada da floresta. A maior delas? Como um paraíso, como sonhou Borges, uma biblioteca repleta de conhecimento, pode se transformar no inferno tal qual narrou o escritor italiano Dante Alighieri?