Sociedade

A Casa dos Espíritos: a América do Sul enfrenta seus fantasmas

Jornalista e colunista do LABS discorre sobre os recentes eventos políticos na região

Eu não consigo lembrar se escutei em uma de suas palestras ou entrevistas ou li o relato no qual a escritora chilena Isabel Allende conta que, devido à inexistência da figura jurídica do divórcio no Chile, ela ou uma amiga passava suas manhãs lendo obituários nos jornais chilenos para saber se o cônjuge estava morto, possibilitando que se casasse novamente. Esse era o Chile até 2004.  

Em sua página na internet, me deparei com o seguinte relato: “O casamento dos meus pais foi um desastre desde o início. Um dia, perto do meu terceiro aniversário, meu pai foi comprar cigarros e nunca mais voltou. Essa foi a primeira grande perda da minha vida (…). Para piorar a situação, não havia divórcio no Chile. Era o único país da galáxia sem divórcio”.

Sempre tenho presente essa história, quando penso no Chile: o país conservador cujo ditador morreu numa cama quente, aos 91 anos de idade, dono de bilionárias contas no exterior e enterrado com honras militares, apesar do passado comprovado de repressor sanguinário. Na Argentina, o mesmo jamais ocorreria, e General Videla, por exemplo, conhecido verdugo da ditadura local, morreu cumprindo prisão perpétua, sucumbindo à difteria, sentado no vaso sanitário, segundo o relatório do IML local.

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Voltando ao Chile, país que muitos jornalistas diziam que havia encontrado paz econômica em meio a esse continente empobrecido, o maior laboratório do neoliberalismo da vizinhança, com a aparente prosperidade de um país europeu. Por isso, quando eclodiram violentos protestos contra o Presidente Sebastián Piñera, com cenas de guerra nas ruas de Santiago, pilhas de mortos se acumulando nas linhas dos jornais e um toque de recolher nas noites chilenas, compatível apenas com regimes mais tiranos, muitos foram pegos de surpresa.

Nós, correspondentes internacionais que nos dedicamos a esse quinhão de mundo, corríamos como baratas tontas entre as insurgências no Equador, eleições bolivianas e o melhor aluno da classe neoliberal, que entrava em adolescência rebelde tardia, o improvável Chile. Em paralelo, colocava-se a cereja do bolo, como se não fosse grande e diverso o continente para nossas pequenas mãos que recorrem com avidez teclados de nossos laptops, uma eleição pendente na Argentina se aproximando.

Muitos de nós tratamos de ver como fenômenos isolados os novos rumos da América Latina, com povos originários chegando às ruas, populações antes tácitas entrando em confronto com as forças policiais, eleições conturbadas e, para nosso espanto, uma aparente calma na Venezuela, nosso rebelde, com ou sem causa, calada.

Podíamos ou não ver causalidade em tantos eventos em uma mesma região. Podíamos ou não analisar o que acontece de maneira separada, com as peculiaridades de cada país. Os especialistas se dividem. Pessoalmente, creio, depois de tantos anos reportando desse pedaço de mundo, que estamos em um processo de reinvenção que supera partidos, ideologias marcadas e reinvindicações pontuais. Estamos nos descolonizando de um sistema que falhou. Como jornalistas, temos dificuldades em acreditar em coincidências. Menos quando elas acontecem em lugares como a América Latina, tão estranhamente conectada, apesar de suas idiossincrasias.

Quando as ruas do Chile começaram a gritar, tudo que eu pensava era nas casas do poeta Pablo Neruda, nas vezes que fui mais a Neruda que ao Chile, visitando suas três casas, bebendo de sua poesia para entender aquele país. Meu primeiro voo foi em um pôr do sol desses espetaculares, planando de Mendoza a Santiago sobre a cordilheira, em um mar de neve e céu rosáceo há quase uma década atrás. Aos poucos, essas imagens eram sendo substituídas por pedidos de ajuda. Meu celular foi inundado por fotos de violência vindas de colegas e de estranhos de lá. Pediam ajuda à imprensa internacional. Os vídeos eram tão bárbaros e o grau de arbitrariedade com que agiam os “carabineiros”, polícia chilena, tão alto que algo em mim fez o que não se deve fazer como jornalista: me emudeceram temporariamente.

Um dos primeiros livros que li em minha adolescência foi a “A Casa dos Espíritos” da escritora Isabel Allende. Ainda me lembro que minha imaginação juvenil traduziu de maneira literal a trama. Imaginava espíritos como os de Alan Kardec, gerações que não se abandonavam, fantasmas que vinham visitar do passado. Foi só anos depois que vi a grande metáfora por detrás da história de três gerações no Chile: a trama falava mais de uma América do Sul povoada pela dominância da tirania, do patriarcado, violência silenciosa disfarçada de Estado e uma realidade entranhada em um continente que cresceu sob a sombra da colonização cultural e de déspotas que submetiam uma civilização ao subdesenvolvimento. Eram sim espíritos. No entanto, eram espíritos que representavam a alma de gerações e gerações de um continente com claras marcações de classes sociais, terremotos políticos, incerteza econômica e ditaduras cruéis.  

Nesses dias onde as placas tectônicas da América se movem, em meu voo de Brasília a Buenos Aires, onde estou para cobrir as eleições presidenciais, vinha pensando nos fantasmas da América Latina que, para mim, tem cada vez mais a ver com a ação direta do homem. O homem que se sobrepõe sobre o homem, o espírito de dominação que submete a civilização. Esses são nossos fantasmas desde que Santa Maria, Pinta e Nina se lançaram ao mar séculos atrás. Uma civilização se abalançou sobre outras, destruiu, reconstruiu, reinventou e hoje, tardiamente, vamos recobrando identidade.

A grande casa dos espíritos, o continente latino-americano, leva quinhentos anos se perguntando quem são seus fantasmas. Serão eles incoerentes como a desigualdade social? Serão eles incongruentes como os regimes impostos do outro lado do continente sobre nós? Seremos o paralelo de civilizações que nunca se acomodaram aos seus déspotas? Seremos capazes de reconstruir, aceitando o que nos chegou ao longo dos séculos, ainda que recriando nossa personalidade como continente?

Dentro dessa batalha entre civilidade e identidade, me pego pensando se vamos ser um movimento antropofágico que, ao deparar-nos com nosso passado, iremos ser devorados por ele, ou se vamos renascer como uma fênix das cinzas do que já fomos, recriando com a capacidade que as vicissitudes da história nos deram.

Mais uma vez penso em outro que escreveu um pedaço de nossa história, Eduardo Galeano que, durante os protestos dos indignados da Espanha disse que o “mundo estava grávido de outro mundo”. Parece que entramos em trabalho de parto na América Latina.