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"O que nos trouxe até aqui não é o que vai nos levar adiante", diz cofundador da MadeiraMadeira

Em entrevista ao LABS, o VP de vendas e marketing da plataforma brasileira de e-commerce, Robson Privado, fala sobre os planos da MadeiraMadeira após aporte de US$ 110 milhões liderado pelo Softbank

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Um novo aplicativo e uma subsidiária focada em logística. Esses são os dois principais projetos da MadeiraMadeira, plataforma de e-commerce de produtos para a casa que mistura itens próprios com um marketplace de terceiros, para 2020. 

Nascida em Curitiba, de uma tradicional indústria de pisos que faliu com a crise de 2008, a empresa tem crescido  80% ao ano e deve fechar 2019 faturando seu primeiro R$ 1 bilhão. “O que vem pela frente é ainda mais promissor”, diz um dos cofundadores e também VP de vendas e marketing da MadeiraMadeira, Robson Privado, ao LABS.

Anunciado em setembro, o aporte de US$ 110 milhões liderado pelo conglomerado japonês Softbank e que teve também a participação dos fundos Light Street Capital e Flybridge Capital Partners, é a principal fonte de recursos para esses novos planos da startup. 

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“O que a gente tem feito ao longo desse ano e vai ser um dos grandes investimentos do ano que vem é ajudar os nossos fornecedores a desenvolver produtos que sejam específicos para o e-commerce”, diz Robson.

Operando por meio do chamado dropshipping, a MadeiraMadeira não tem estoque dos produtos que vende. Ao receber o pedido do consumidor, passa-o diretamente ao fabricante, que despacha o produto ao cliente. Essa operação é mais barata para a MadeiraMadeira e mais ágil para o cliente em comparação a outros arranjos logísticos típicos do comércio eletrônico. Mas também faz com que a empresa tenha menos controle sobre a qualidade dos produtos, das embalagens e do processo de transporte até o consumidor. 

“Esses fornecedores estavam acostumados a vender só no offline. Quando você vende um a um, em uma embalagem que tem de 5 a 6 touchpoints com diversas transportadoras, (esses produtos) correm o risco de chegar no destino final avariados. Estamos investindo muito no começo da cadeia, desenvolvendo produtos com a qualidade MadeiraMadeira, para que essa embalagem seja superior e ajude no transporte”, explica Robson, salientando que a MadeiraMadeira quer ser o “parceiro da indústria” no desenvolvimento desses produtos.

Os irmãos Marcelo e Daniel Scandian e Robson Privado, fundadores da MadeiraMadeira. Foto: Divulgação.

O vetor desse investimento em logística é a subsidiária da empresa, BulkyLog. Lançada em julho deste ano, a startup especializada na entrega de produtos acima de 15 quilos nasceu com a promessa de ser “a Loggi dos produtos pesados”, já que, assim como a startup de logística, não conta com caminhões ou meios de transporte próprios, mas sim com uma plataforma que conecta fornecedor e cliente para realizar a entrega. 

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“Não temos um só caminhão, mas fazemos o gerenciamento completo, desde o (pedido no) aplicativo até a forma como a gente informa o cliente sobre a entrega. Quando se olha uma operação que entrega no Brasil inteiro –nossos fornecedores normalmente estão no interior, enquanto a demanda está nas capitais – isso, por si só, já é complexo. Nossa ideia é investir ainda mais na BulkyLog no próximo ano para sermos cada vez mais eficiente de ponta a ponta”, esclarece. Com a BulkyLog, a empresa quer reduzir o tempo médio de entrega de móveis de 15 para 5 dias.

A preocupação com a logística, segundo Robson, tem a ver com o propósito maior da MadeiraMadeira. O empreendedor explica que o principal público-alvo da empresa são clientes de classe C, e que o grande trunfo da MadeiraMadeira foi mostrar a esse público que é possível aliar qualidade e estilo a um preço acessível, em uma operação 100% online. 

“A gente se aproximou mais do cliente nesse ano, fizemos muitas visitas. Às vezes, ele (cliente) demora de 6 meses a 1 ano para poder comprar um sofá de R$ 700, e ver o quanto aquilo é importante, o quanto gera dignidade ter uma sala de estar e poder chamar família e amigos para compartilhar. (Isso) é o que nos move. O que falamos muito por aqui e traduz tudo isso é ‘there’s no place like home’“, diz Robson.

A construção desse mindset – de que é possível comprar artigos para casa com preço acessível em uma operação online de ponta a ponta – é, justamente, um dos objetivos do Softbank com a MadeiraMadeira. Ao estrear em uma indústria praticamente inexplorada com seu fundo de US$ 5 bilhões para startups latino-americanas, o conglomerado japonês espera que a empresa curitibana lidere a transformação digital no setor. “A gente vai ser um dos motores da transição do offline para o online na nossa categoria,” reitera Robson. 

Com o mobile trazendo a maior parte das vendas da plataforma, o executivo diz que o aplicativo da MadeiraMadeira, segundo grande projeto da empresa para o próximo ano, deve ser lançado no primeiro trimestre de 2020.

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“Nosso app está sendo pensado com toda a jornada de compra e pós-compra, não só com oferta de produtos, mas de serviços e conteúdo. O objetivo é que o cliente escolha onde comprar: no desktop, no notebook, no tablet, no browser do celular ou no aplicativo. Mas se baixar o app, a ideia é que ele tenha uma experiência diferente”, conta Robson.

“O que nos trouxe até aqui não é o que vai nos levar adiante”

O executivo da MadeiraMadeira explica que o que atraiu os olhos do fundo japonês foi uma soma de fatores. Da liderança da startup no segmento ao negócio altamente escalável e que apresenta, desde a sua fundação, um crescimento espantoso de 80% ao ano.

“Hoje, menos de 5% da venda da nossa categoria é feita online. Quando você olha isso, você olha um mercado (potencial) de R$ 250 bilhões só em produtos. Se a gente olhar produtos e serviços, estamos falando de R$ 500 bilhões”, explica Robson. É em razão desse potencial enorme do comércio eletrônico de produtos para a casa que a empresa também não pensa em atuar fora do Brasil por enquanto. 

No final de 2017, já com a operação de dropshipping estável, a empresa queria ampliar a oferta de produtos. “A gente percebeu que tinham algumas categorias que faziam com que o dropshipping tivesse uma complexidade maior de implementação, porque depende de uma integração com o fornecedor, com o ERP, e exige mudança no modelo da operação. Para algumas categorias como eletrodomésticos e decoração, que têm ticket médio-baixo, por exemplo, é muito mais difícil de operar nesse modelo.” 

Foi para solucionar essa questão que a empresa lançou, em abril de 2018, o segundo formato em que opera, o marketplace 3p, que funciona com vendedores ofertando seus produtos na própria plataforma da MadeiraMadeira. 

“Começamos a olhar para esse mercado e identificamos uma oportunidade: entregar uma variedade de produtos maior para o cliente através do marketplace 3p. Como a gente é um dos maiores sellers de casa e decoração nos outros marketplaces, como a B2W, Via Varejo, Mercado Livre e Magazine Luiza, a gente aprendeu a ser um seller e viu isso como uma oportunidade”, conta Robson.

O resultado desse benchmarking foi o que levou a startup a lançar a operação de marketplace, que é a unidade que mais tem crescido nos últimos anos. “Ainda estamos aprendendo a trabalhar com as duas operações. Em 2019 já cresceu muito, e em 2020 (o marketplace) é nossa unidade de negócio que mais vai crescer.”

O americano Dan Davis, diretor de dados da MadeiraMadeira. Foto: Divulgação.

O que trouxe a MadeiraMadeira até aqui, no entanto, não é o que vai levar a empresa adiante – tanto em relação a novos projetos quanto à criação de novas posições. “Estamos olhando ativamente talentos ao redor do mundo. Em maio, trouxemos o Dan Davis como nosso CDO (Chief Digital Officer)”, conta Robson.

Vindo do Vale do Silício, o norte-americano foi o responsável por ajudar a fundar, há 16 anos, a californiana Build.com, varejista pioneira no segmento de e-commerce para casa. “Nunca achamos que estamos completos ou que sabemos tudo. Sempre buscamos outras pessoas, sejam investidores, mentores, a própria Endeavor. Temos que trazer gente melhor que a gente, seja como for”, ressalta Robson.

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Com quase 800 funcionários, dos quais 200 atuam nas áreas de tecnologia e desenvolvimento de produto, a MadeiraMadeira foi pioneira no Brasil ao operar no modelo de dropshipping. Foi também a primeira startup curitibana a levantar capital de risco, em 2012, com os fundos Monashees, Kaszek Ventures e Flybridge Capital Partners, desempenhando um papel central na missão de colocar a capital paranaense no mapa das startups de inovação.

Colecionando marcos em sua curta história, ao olhar para o futuro, o objetivo é ainda mais ambicioso. “Hoje em dia já somos os maiores (em produtos para casa) online, mas a gente quer ser o maior online e offline”, revela Robson. Sem dar mais detalhes, o cofundador da MadeiraMadeira promete uma grande novidade já para o fim de janeiro do próximo ano.