Esplanada dos ministérios, em Brasília
Economia

A estabilidade do funcionalismo público é um paraíso para o consumo?

O colunista do LABS explora os possíveis impactos de uma reforma administrativa – a próxima missão do governo Bolsonaro após a Previdência

Em Brasília, começa a se falar com mais frequência sobre uma eventual reforma administrativa do Estado, que poderia mudar drasticamente a forma com que servidores públicos brasileiros encaram a tal estabilidade.

A discussão ainda é muito embrionária, mas já suficiente para levar a uma reflexão em torno da garantia de emprego e, consequentemente, de salário de cerca de 11,5 milhões de pessoas que trabalham para a administração pública direta ou indireta no Brasil, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

A estabilidade, claro, tem um peso significativo no comportamento de consumo de quem usufrui dela. Na capital federal, a despeito de uma variação mínima de um ano para o outro, os servidores respondem por basicamente metade da massa salarial.

Isso significa que a cada dois reais movimentados em Brasília, um é em razão do funcionalismo público.

Não à toa, os setores de comércio e serviços representam até 90% da atividade econômica do Distrito Federal. Com dinheiro certo na conta todo mês, servidores tendem a ousar mais na compra de bens duráveis e, em geral, têm dificuldades de poupar e administrar as finanças corriqueiras.

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Os servidores federais, com forte concentração em Brasília, ganham melhor, na comparação com outros empregados públicos: segundo o Ipea, quando os militares são excluídos da lista, a remuneração média fica em R$ 10,2 mil, uma baita salário para os padrões brasileiros.

“Esse volume expressivo de recursos garante uma massa de rendimento considerável, capaz de arrefecer os impactos negativos em períodos de crise”, disse a esta coluna o economista Jusçanio Umbelino de Souza, da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan). “Brasília tem um colchão amortecedor de crises”, resumiu ele.

Em Brasília, não há (ainda) mercado financeiro pujante nem indústrias de grande porte. Na região central da cidade, chamada de Plano Piloto, são mesmo os servidores que dominam o consumo. O dinheiro circula em restaurantes, padarias, shoppings.

No mercado de luxo, o Distrito Federal disputa com Belo Horizonte a maior praça fora do eixo Rio-São Paulo. Nas concessionárias, embora o movimento já tenha sido muito melhor, os moradores da capital federal costumam aparecer, em média, a cada três anos para trocar de carro — com a estabilidade financeira, os clientes se sentem à vontade para ir girando o financiamento.

O economista Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do Banco Central, reforça que os altos salários da cúpula do funcionalismo atribuem à Brasília uma vida econômica muito própria, focada essencialmente em comércio e serviços. A garantia do emprego, acrescentou ele a esta coluna, faz com que o servidor tenha no horizonte uma previsão financeira um pouco mais segura.

“Mas não vejo o cenário como um paraíso para o consumo. A garantia do emprego não implica necessariamente garantia de salário”, ponderou Freitas, lembrando da inflação que ainda corrói a renda do trabalhador médio e do freio nos reajustes do funcionalismo. “Falar em paraíso, portanto, é uma ilusão. Não existe paraíso”, emendou.

O funcionalismo público é determinante para que os brasilienses tenham a maior renda per capita do país, o que não os exime do endividamento. Pelo contrário. O dinheiro certo acaba, ao invés de organizar, bagunçando as contas de muita gente. O mais recente estudo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do DF (Fecomércio) mostra que 80% das famílias da capital federal não estão conseguindo fechar as contas. Dessas, nove em cada dez se enrolaram com o cartão de crédito.

A educação financeira capenga – assunto já tratado por mim aqui no LABS –- ajuda a explicar o endividamento de pessoas bem remuneradas. Ganhar bem todo mês não garante, portanto, as contas em dia. A presença de agiotas nos corredores do Congresso e pela Esplanada dos Ministérios ilustra bem isso.

Por outro lado, vale lembrar que, aproveitando-se de uma massa salarial privilegiada, prestadores de serviço e comerciantes em Brasília, não raramente, abusam de margens de lucro exorbitantes, justamente contando com a estabilidade do emprego de seus potenciais clientes.

Será interessante observar a reação da economia de Brasília quando – e se – a reforma administrativa avançar e, porventura, a estabilidade deixar de existir.

Pensar nessa possibilidade pode ser, desde já, educativo para todo mundo que compra e vende na capital.