Há mais diferenças do que semelhanças entre a crise do coronavírus e a grande recessão de 2008-09. Foto: Shutterstock
Economia

PIB da América Latina pode encolher 1,8% e países precisam gastar para evitar o pior

Prioridade, além da necessidade urgente de garantir a saúde da população, precisa ser a preservação de empregos e renda

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Nas guerras, governos costumam gastar sem restrições. A enorme ameaça do coronavírus pandemia denão se limita aos sistemas de saúde. A Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL) está revisando para baixo sua previsão do PIB da região para uma contração de 1,8% em 2020 – bem abaixo do já fraco crescimento de 1,3% previsto em seus últimos dados oficiais, publicados há três meses. Nesse cenário, os países precisam mobilizar muitos recursos para garantir que as empresas não quebrem e as pessoas não fiquem sem dinheiro. É o que muitos economistas estão dizendo, e os governos latino-americanos estão tentando atender o chamado.

Muitos países da região estão anunciando uma enxurrada de políticas anticíclicas. O governo do Brasil anunciou na segunda-feira medidas emergenciais para injetar quase US$ 30 bilhões na economia e amenizar o golpe da pandemia do COVID-19. Além de aumentar os gastos com saúde, o governo distribuirá um vale mensal de R$ 200 para trabalhadores informais e antecipará o décimo-terceiro de aposentados. A Argentina promete um investimento adicional de US$ 1,58 bilhão em obras públicas e uma licença de trabalho especial para maiores de 60 anos. A Colômbia estima que o custo de seu pacote de estímulo possa chegar a US$ 14,8 bilhões. O Chile divulgou na quinta-feira um pacote de US$ 11,7 bilhões em medidas de emergência destinadas a salvar empregos e proteger pequenas empresas. A lista continua.

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E é assim que deve ser. Santiago Levy, membro da Brookings Institution e ex-vice-presidente de conhecimento do Banco Interamericano de Desenvolvimento, diz que o dinheiro não deve ser restrição neste momento. “Os governos devem aprovar leis nacionais de emergência que lhes permitam gastar mais livremente e tomar outras medidas, como exigir que hospitais particulares atendam pacientes sem plano de saúde, por exemplo”, disse ele durante uma discussão sobre o COVID-19 e a América Latina realizada pelo Inter-American Dialogue, um think-tank baseado nos EUA. 

Isso está de acordo com o que Martin Sandbu, comentarista econômico do Financial Times, escreveu em um artigo recente sobre as respostas dos governos à crise do coronavírus: “Os governos devem deixar de lado a cautela e gastar maciçamente.” Para ele, a resposta fiscal correta, além de não poupar no setor da saúde, é “sustentar a renda que as pessoas esperavam ter se não fosse pelo vírus”. 

De onde virá o dinheiro?

Uma grande questão que surge disso é: de onde virão os recursos? Os países da América Latina têm muito menos espaço orçamentário do que durante a crise financeira global de 2008-09, a relação entre dívida pública e PIB disparou na última década e, em geral, os governos não criaram amortecedores econômicos adequados para as crises. 

Alicia Bárcena, secretária-executiva da CEPAL, que também participou da discussão do The Dialogue e antecipou a revisão do PIB latino-americano, enfatiza fortemente o papel de instituições financeiras multilaterais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que devem intervir e emprestar neste momento sem muitos termos condicionantes aos países em desenvolvimento, que provavelmente sofrerão mais.

Alícia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Foto: Divulgação

“Uma das principais preocupações é, no final das contas, o que vai acontecer com o multilateralismo. Precisamos de mais integração, temos que avançar para uma maior coordenação”

Alicia Bárcena, secretária executiva da CEPAL.

Os bancos centrais do Brasil e do México poderão acessar uma linha de swap cambial fornecida pelo Federal Reserve que será usada para aumentar o fornecimento de liquidez em dólar, quando necessário. Cada país terá uma linha de US$ 60 bilhões com a autoridade financeira dos EUA para combater o alto grau de volatilidade do mercado e facilitar sua capacidade de implementar outras políticas na economia “real”.

Bárcena mencionou os cortes nas taxas de juros pelos bancos centrais como uma ferramenta importante. Como credores de última instância, os bancos centrais devem garantir liquidez, mantendo baixo o custo dos empréstimos e financiando a oferta de crédito, direta e indiretamente. Mas a política monetária não é suficiente, na opinião dela. “Esta crise é bem diferente de 2008, então as soluções também devem ser bem diferentes”.

Um impacto de cinco frentes

A secretária-executiva da CEPAL explica que a pandemia já afetou tanto a oferta quanto a demanda. Do lado da oferta, com fábricas fechando na China e na Europa; sob demanda, o choque provém dos restaurantes que fecham as portas, do turismo em declínio acentuado e das pessoas em isolamento. Ela descreve a crise atual como sofrendo impacto proveniente a partir de quatro frentes diferentes na América Latina:

  1. China: o país um dos principais destinos de exportação para toda a região e o maior comprador no caso do Chile, Brasil e Peru. O país asiático foi severamente atingido, e a CEPAL estima que as exportações da região para lá devem cair 10,7%; 
  2. Menor demanda: comércio e diversos serviços sofrerão muito, como o turismo. Algumas nações do Caribe podem ver seu a receita do setor cair entre 8% e 25% por causa das restrições mundiais em viagens;
  3. Interrupção nas cadeias de valor: As interrupções nas cadeias de suprimentos serão sentidas em países com fortes setores industriais, como México e Brasil;
  4. Preço das commodities: Basicamente, todos os grandes países latino-americanos dependem de commodities, do cobre chileno ao minério de ferro e soja brasileiros, do petróleo mexicano ao trigo argentino, e seus preços estão em queda livre devido à demanda global mais fraca.
  5. Aversão ao risco: um quinto canal de transmissão decorre de maior aversão ao risco por parte dos investidores e agravamento das condições financeiras globais.
Santiago Levy, membro da Brookings Institution e ex-vice-presidente de conhecimento do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Foto: Divulgação

Responsabilidade

É essencial manter empregos e rendas e minimizar os custos das empresas em colapso. Mas Santiago Levy diz que é importante que os governos sinalizem claramente aos mercados de capitais que o aumento nos gastos se deve a uma circunstância excepcional que será revertida. “Os governos devem pedir aos legisladores ‘Deem-nos a capacidade de aumentar gastos e déficits’ mas também indicar um aumento de receita por impostos em, digamos, janeiro de 2021”, disse ele, apontando que a data mencionada é arbitrária. Para ele, isso é essencial para que os mercados não punam os países, excluindo-os dos fluxos de capital e acrescentando uma quarta camada ao que já é para ele uma crise econômica com três níveis de choque:

  1. Choque externo, derivado do comércio, do turismo e das commodities em queda, bem como dos mercados financeiros em pânico;
  2. Choque interno, resultante do isolamento social e da quarentena e sentido na economia real dos países, em vendas e produção;
  3. Choque da incerteza, que adiciona uma dose pesada de complexidade a todos os outros, porque os cientistas ainda não entendem completamente o vírus e ninguém sabe ao certo quanto tempo durará o surto.

Em 2008-09, apenas o primeiro choque foi sentido, segundo Levy.

“Os países devem se concentrar na proteção do emprego, para que a demanda não entre em colapso”, afirmou Levy. “São importantes as transferências para os pobres pelos instrumentos existentes nos países, porque não há tempo para iniciar um programa do zero. Mas é muito necessário proteger o emprego pelos próximos três meses, em um bom cenário, ou por até seis meses”.