trabalhadores em uma construção de prédio
Foto: Alf Ribeiro/Shutterstock
Economia

O mundo quer mais reformas no Brasil; os brasileiros, mais emprego

Com racha no partido que elegeu Bolsonaro e eleições locais, 2020 será um ano difícil para uma agenda reformista – especialmente se a população não notar, e logo, algum resultado do que já foi feito

A economia brasileira deve crescer 2,22% em 2020. Para 2019, a mediana das projeções está em 0,99%. Essas são as previsões de algumas das principais consultorias e instituições econômicas do Brasil, ouvidas semanalmente pelo Boletim Focus, do Banco Central. O crescimento de 0,6% do PIB registrado no terceiro trimestre de 2019, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), deixou economistas e analistas brasileiros mais otimistas.

Após um ano marcado pela aprovação da reforma da Previdência, o Brasil tem em 2020 outro ano de reformas para tocar. Isso é o que deseja parte do setor produtivo, investidores, instituições internacionais como o FMI e o Banco Mundial, e a própria equipe econômica do atual governo. Fazer isso em meio às eleições locais e ao racha do partido que elegeu o presidente Jair Bolsonaro e à fragilidade da base governista, no entanto, não será nada fácil.

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Algumas propostas que poderiam ter começado a caminhar neste ano, ligadas a uma reforma tributária, por exemplo, já ficaram para 2020. Diante da explosão de protestos em vários vizinhos latino-americanos, o sentimento no governo e no Congresso era o de que era preciso dar um tempo nas grandes mudanças.

Empresários da indústria também pediram cautela após o presidente norte-americano Donald Trump ter acusado Brasil e Argentina de manipular o câmbio e ter dito que irá sobretaxar o aço produzido nos dois países latino-americanos. Na última sexta-feira (20), Bolsonaro disse em uma live que, após uma conversa por telefone, o presidente americano havia desistido de taxar o aço e o alumínio brasileiros. Mas, na realidade, jornalista que cobrem a Casa Branca disseram que tudo não passou de um blefe do presidente americano, e que o aço brasileiro nunca seria sobretaxado de verdade.

Segundo o jornal O Globo, em reunião com executivos da indústria química neste mês de dezembro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, teria declarado que não vai “soltar a indústria estrangeira em cima da indústria nacional” antes que haja uma simplificação de impostos no país. “É uma abertura gradual… e vai ser feita em cima de energia barata, de custos de logísticas mais baratos”, teria dito Guedes.

Embora o desejo de grande parte do mercado seja por uma economia mais liberal, aberta, o que a população brasileira quer mesmo – e pouco viu até agora – é trabalho. Entre futebol e celebridades, a palavra “emprego” foi a quarta mais buscada em 2019, segundo Google.

Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged (pesquisa do Ministério da Economia que mede o número de vagas de emprego com contrato formal no país) mostraram um crescimento significativo na abertura de oportunidades desse tipo no país. Foram 948.344 vagas formais criadas de janeiro a novembro, 10,5% a mais que no mesmo período do ano passado e também o melhor resultado para os primeiros 11 meses do ano desde 2013, antes ao início da crise. 

A quantidade de brasileiros em idade ativa sem ocupação ou vivendo na informalidade, no entanto, ainda é muito expressiva. 

A taxa de desemprego ficou em 11,8% no trimestre encerrado em setembro, apenas 0.1 ponto percentual abaixo do mesmo período do ano anterior, de acordo com o IBGE. São 12,5 milhões de brasileiros desocupados. E a pequena queda no indicador se deve a um movimento um tanto perverso: informalidade recorde. 

“Estimamos que o mercado de trabalho informal continue desacelerando no futuro, à medida que a criação formal de empregos se acelera. Isso ocorre em quase todos os ciclos de aceleração do Caged e provavelmente causará um gradual declínio da taxa de desemprego, apesar da melhora projetada no crescimento do PIB”, pondera o Itaú BBA, departamento de análise econômica do maior banco privado do país. Para eles, a taxa de desemprego terminará 2019 em 11,9%, e 2020 em 11,5%.

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Confiança interna no país começa a se recuperar

Nos primeiros oito meses depois da posse de Bolsonaro, a taxa de reprovação do governo tinha crescido de 30% para 38%, segundo sondagem periódica do instituto DataFolha. Um pequeno alívio veio na primeira semana dezembro, quando esse índice caiu para 36%.

Entre os motivos para isso, está um otimismo um pouco maior dos brasileiros em relação à economia: 43% acredita que a situação vai melhorar nos próximos meses; em agosto, 40% dos entrevistados pensavam isso.

De fato, recuperar a confiança da população brasileira em meio a uma agenda de reformas é difícil, ainda mais após um longo período de crise. O período de retração econômica que estourou entre 2014 e 2016 foi a pior e mais longo que o país já viveu.

Com a menor taxa de juros da história e uma inflação abaixo da meta, a economia do país está engrenando graças ao crédito privado – e espera-se que em 2020 esse processo se acelere, gerando também mais empregos.

De maneira geral, 2020 será um ano de desaceleração, quase estagnação para as economias mais desenvolvidas. Os Estados Unidos devem crescer menos de 2%, a China deve desacelerar de 6,2% para 5,7% e a economia mundial como um todo, estimam FMI e outras instituições, crescerá em torno de 3%. 

São os emergentes, de diferentes continentes, incluindo o latino-americano, que farão o ponteiro mexer mais. Mesmo assim, nada de espetacular deve ocorrer no ano que vem. 

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“Na América Latina, que responde por cerca de 7% do PIB mundial, o crescimento deve passar de 0,2% para 1,3%, com aceleração no Brasil, moderação das recessões argentina e venezuelana e certa retomada no México”, escreveu o economista-chefe do Itaú-BBA, Mário Mesquita, em artigo para o jornal Valor Econômico.

“Certamente o Brasil possui as melhores condições para crescimento dentre os emergentes, mas precisa realizar as reformas estruturantes necessárias para organizar sua economia, reduzir o déficit fiscal, ampliar a competitividade e agregar segurança jurídica para conseguir atrair investimentos”, disse Alvaro Bandeira, economista-chefe do Modalmais, ao LABS.

Para ele, se o país conseguir fazer as reformas necessárias e na velocidade exigida, ou seja, em 2020, “poderemos surpreender positivamente”. “Os motores do crescimento estariam associados aos setores agropecuário, infraestrutura, retomada da construção civil e ainda uma parcela relacionada com o consumo de bens e serviços”, diz Bandeira. Esses setores seriam os responsáveis também pela geração de novos empregos.

Na última semana, segundo o UOL, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, disse que o investimento deve surpreender positivamente em 2020 e crescer 4,1%, puxado pelo setor imobiliário.

Em coletiva de imprensa nessa semana, Guedes disse que a reforma tributária e um novo pacto federativo são prioridades do governo para 2020. A ideia é que a proposta do governo posso agregar outras propostas que tramitam no Congresso sobre o mesmo tema. Entre as ideias em discussão, está a extinção de dois impostos federais (PIS e Cofins), que seriam agregados em um novo imposto do tipo IVA.