ministro da economia do Brasil Paulo Guedes
Economia

Indústria dos concursos: é o fim?

O jornalista Diego Amorim explica o que Paulo Guedes quis dizer com "acabou o empreguismo no Brasil"

Brasília, criada pelo então presidente Juscelino Kubitschek para ser a nova capital administrativa do Brasil a partir de 1960, sempre viveu em função do funcionalismo público. Mas nada se compara ao que aconteceu na cidade entre os anos 2000 e 2014, principalmente.

Naquele período, milhares de jovens do país inteiro desembarcavam na capital federal com um sonho: passar em concurso e trabalhar para o Estado. Todo o esforço era pouco quando vislumbravam a estabilidade financeira e os generosos benefícios da carreira pública.

Os cursinhos preparatórios viraram uma febre. Auditórios transformados em salas de aula, com megaestrutura, abrigavam 100, 200 candidatos a uma vaga em certames, que aconteciam praticamente todo fim de semana. Estima-se que, somente em Brasília, havia 350 mil “concurseiros” naqueles anos áureos.

Os professores eram pop stars e, para ajudar a realizar o sonho de tanta gente, ganhavam mais do que os melhores docentes de universidades particulares. Entre um conteúdo e outro, prometiam aos alunos que, uma vez aprovados, eles poderiam “ganhar bem sem precisar trabalhar tanto”.

É claro que essa mentalidade fez surgir uma verdadeira indústria dos
concursos, incluindo venda de livros e apostilas e aulas ministradas até mesmo durante as madrugadas e aos fins de semana e feriados. Quem chegava a Brasília demandava uma extensa rede de pousadas, apartamentos de temporada, além de alimentação e transporte.

Em 2013, quando somente uma das maiores bancas realizadoras de concursos aplicou 61 provas em todo o país – seis vezes mais do que o número atual –, a Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos (Anpac) calculou que aquele mercado estava movimentando, direta e indiretamente, algo em torno de 1 bilhão de reais por ano.

O dono do maior cursinho de Brasília era uma celebridade. Em 2014, animado com sua multidão de alunos, tentou espaço no mundo da política, mas não conseguiu se eleger deputado federal. Aquele ano coincidiu com o início do declínio vertiginoso da indústria dos concursos.

Com a economia brasileira entrando em parafuso, a renda diminuiu e os alunos começaram a sumir das escolas preparatórias. O aumento da violência também ajudou a afastá-los: ficar estudando até tarde fora de casa não era mais tão seguro. Além disso, cada vez menos gente podia gastar com o transporte para ir e voltar dos cursinhos e com as refeições em lanchonetes.

As contas dos brasileiros não fechavam e as do governo federal, menos ainda. A oferta de concursos foi sendo reduzida drasticamente ano após ano. E jamais haveria aquela enxurrada de vagas abertas quase que diariamente.

Quem não desistiu dos estudos passou a optar pelas aulas virtuais, forçando cursinhos a fecharem as portas ou a diminuírem suas estruturas. O atual governo intensificou a crise da indústria dos concursos. O ministro da Economia, Paulo Guedes, por diversas vezes deixou claro o pensamento da atual gestão: diminuir o considerado inchaço da máquina pública e, somado a isso, discutir a possibilidade de acabar com a estabilidade do funcionalismo.

“Acabou o empreguismo no Brasil”, chegou a dizer Guedes. Os concursos do Executivo federal estão suspensos por tempo indeterminado. Por enquanto, sobraram, com uma oferta bem menor, certames locais e do Judiciário, por exemplo. Com o desmoronamento dessa indústria, os cursinhos tiveram de se reinventar e, ao que tudo indica, milhares de jovens brasileiros também terão de encontrar novos caminhos.