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Descubra a América Latina

Um governo de esquerda em um continente que gira à direita

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*Este texto foi escrito pelo cientista político Emerson Cervi, colunista do LABS. Os textos do nosso quadro de colunistas têm o objetivo de informar a partir de diferentes especialidades e pontos de vista. As opiniões contidas neste texto não refletem a posição do LABS ou do EBANX.

No último dia 1º de dezembro, André Manuel López Obrador, conhecido por AMLO, tomou posse no cargo de presidente do México para um mandato de seis anos. Ele venceu as eleições e junho de 2018 com folga. Fez 53% dos votos válidos para presidente, desbancando líderes tradicionais da política mexicana. O segundo colocado, candidato do governo, ficou com 22% de votos.
Ele se elegeu por um pequeno partido de esquerda, o “Movimiento de Regeración Nacional” (Morena), fundado em 2011, a partir da dissidência de tradicionais partidos de esquerda no México. Assim, AMLO assume o governo na contramão do continente latino-americano, que nos últimos anos tem apresentado vitórias eleitorais de candidatos mais próximos de ideias conservadoras e de direita.
Durante a campanha ele apresentou um discurso de responsabilidade social, colocando o Estado a serviço dos mais carentes e priorizando o combate à violência urbana – uma das maiores preocupação dos mexicanos. O que explica essa opção por um presidente de esquerda nesse momento de tendências majoritariamente no sentido contrário em outros países da região e no resto do mundo? Para tentar responder é preciso voltar atrás, pelo menos algumas décadas, na história política mexicana.

Em primeiro lugar precisamos considerar que sistemas democráticos existem para permitir a substituição de elites governantes. A consequência natural dessa característica é que partidos e elites políticas, uma vez no poder, usarão de todos os recursos legítimos (e às vezes ilegítimos) para manter-se nele. Isso gera uma tensão entre as regras do jogo, definidas pelos “jogadores” que têm poder, para preservar os postos decisórios e a vontade do eleitor de mudar os jogadores.
Quando mais resistente for o sistema político, maior volume de insatisfação acumulada será necessário para a substituição do partido governante. E, portanto, mais tempo para as mudanças. Alcançado determinado patamar de insatisfação eleitoral, abrem-se duas possibilidades institucionais:

  1. Mudança gradual, com substituição dos governantes por opositores que fazem parte do sistema político instituído;
  2. Mudança aguda, com substituição dos governantes por opositores com pouca relevância no sistema política até então, ainda que se identifiquem institucionalmente com o sistema representativo.

Há uma terceira opção, que é pela via não institucional, quando todos os grupos políticos institucionalizados estão desgastados, com perda de credibilidade generalizada nas instituições, o que abre espaço para outsiders com discursos populistas – de direita ou de esquerda, tanto faz.

No caso do México, a eleição de AMLO em 2018 pode ser considerada o ponto culminante de um processo de mudanças geradas pelo realinhamento eleitoral gradual que durou pelo menos duas décadas. Esse realinhamento foi paulatinamente “minando” a força política do principal partido mexicano do século XX, o PRI (Partido Revolucionário Institucional), para em seguida reduzir o poder dos partidos alternativos a ele, o PAN e o PRD.

Ao final, os partidos grandes cederam espaço para as novas forças eleitorais, menos vinculadas às estruturas tradicionais de representação e mais próximas às forças sociais que não se sentem representadas. Se considerarmos o processo de consolidação, ascensão e queda dos partidos dominantes no século XX no México, a eleição de AMLO conclui um processo de quase 90 anos, dos quais, 70 deles dominados por um único partido.

O atual sistema representativo mexicano se consolidou a partir de 1929, com o fim do processo revolucionário de 1910. Com o fim da revolução e da guerra civil que se seguiu a ela, o PNR (Partido Nacional Revolucionario), primeiro nome do PRI, foi criado para substituir o caudilhismo por governos mais institucionalizados. Em 1938 ele muda o nome para PRM (Partido Revolucionario Mexicano) e mantém-se no poder. Apenas em 1946 é que assume o nome atual, com a sigla PRI.

Após a derrota de 2018 correntes internas do partido passaram a considerar a possibilidade de nova troca para tentar superar os desgastes de mais de meio século no poder. Considerando os diferentes nomes, o PRI governou o México de 1929 até 2000 ininterruptamente, quando perdeu pela primeira vez a presidência da república. No entanto, a derrota começou na eleição anterior, em 1997, quando pela primeira vez nas eleições nacionais o PRI não conseguiu eleger a maioria da representação parlamentar nacional. Esse foi o primeiro sinal do desgaste na relação entre o PRI e os eleitores mexicanos.

O principal opositor histórico ao PRI no México foi o PAN (Partido Acción Nacional), fundado em 1938, e que se define como partido de direita. Ligado a setores da igreja católica, nunca havia conseguido maioria de votos até 2000, quando elegeu seu primeiro presidente, Vicente Fox. Na eleição seguinte, em 2006, foi eleito presidente do México, Felipe Calderón, também do PAN, que garantiu a hegemonia política do partido por 12 anos.

No final do século XX aparece uma terceira força eleitoral no México. Em 1989, a partir de uma dissidência do PAN, surge o PRD (Partido de la Revolución Democrática). Ele lança candidatos à presidência do País em 2000 e 2006. Em 2006 o candidato é André Manuel Lopez Obrador, que fica em segundo lugar na disputa, colocando o PRI na terceira posição. Em 2012, após duas derrotas consecutivas, o PRI consegue voltar à presidência do México, com Enrique Peña Nieto. Porém, Peña Nieto é eleito com uma diferença pequena de votos em relação ao segundo lugar, novamente pelo PRD, André Manuel Lopes Obrador. O resultado foi de 39% para Peña Nieto, contra 32% para AMLO.

Como podemos perceber, a partir de 1997 há um processo de desgaste com substituição dos partidos dominantes por alternativas a eles e, em seguida, por novos partidos. No entanto, AMLO não pode ser considerado um outsider. A eleição de 2018 foi a terceira disputa consecutiva dele à presidência da república, duas pelo PRD e uma pelo MORENA. Sem contar as eleições subnacionais vencidas por AMLO.

Em resumo, a política mexicana nacional foi dominada pelo PRI durante sete décadas do século XX, graças a um sistema de representação política fechada e com barreiras para fortalecimento de forças alternativas institucionalizadas.

O PAN colocou-se como seu maior opositor durante todo o período. Mas, a partir dos anos 2000, o desgaste do PRI foi maior que os constrangimentos institucionais para renovação e o partido perdeu duas eleições seguidas para o PAN, conseguindo voltar ao poder em 2012. Porém, uma vez o eleitor tendo experimentado a possibilidade de renovação, fica mais fácil optar por alternativas aos partidos dominantes.

Foi o que aconteceu com a eleição de AMLO em 2018, um político conhecido do eleitorado, porém, em um partido novo, ou seja, sem os desgastes dos partidos tradicionais. Nessas condições, a substituição de partidos tradicionais por novas lideranças com respaldo social e histórico de representação não sinaliza uma crise do sistema democrático. Ao contrário, é um indicador de sua potência para renovação dentro das regras institucionalizadas. Exceto, é claro, para quem perdeu o poder.

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