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Tão longe de Deus, tão perto da América Latina

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*Este texto foi escrito pelo Professor de História Econômica da UFPR, Ivan Salomão, colunista do LABS. Os textos do nosso quadro de colunistas têm o objetivo de informar a partir de diferentes especialidades e pontos de vista. As opiniões contidas neste texto não refletem a posição do LABS ou do EBANX.

A onda liberal-conservadora por que passa a América do Sul desde o início dos anos 2010 contribui para desnudar a crise existencial que acomete o Mercosul desde a assinatura do Tratado de Assunção, em 1991. Já nascido no divã, o bloco sobreviveu por duas décadas padecendo de clara bipolaridade: da desconfiança inicial, assistiu à euforia da diplomacia terceiro-mundista da década de 2000 para apresentar, nos dias de hoje, graves sintomas de depressão. O ponto é que, agora, a intenção de se abandonar a medicação paliativa parece real. O prognóstico não permite meias-medidas: lobotomia ou sucumbência.

O Brasil, maior economia e principal player geopolítico do bloco, goza, por óbvio, da liderança natural entre seus membros, de modo que suas diretrizes acabam por balizar os caminhos da união. E as declarações do presidente eleito a esse respeito sugerem que de estelionatário eleitoral ele não deverá ser acusado. O modo pouco urbano com que seu futuro ministro da Economia dirigiu-se a uma repórter argentina para frisar a desimportância do Mercosul na lista de prioridades do novo governo brasileiro não deixa dúvidas de que, desde o início, eles falavam sério.

Por outro lado, a nomeação de Otávio Brandelli para a Secretaria-Geral do Itamaraty demonstra que certo pragmatismo ainda resiste ao viés ideológico que se pretende imprimir à diplomacia brasileira a partir de 2019. Atual diretor do Departamento de Mercosul do Ministério de Relações Exteriores, a presença de Brandelli reforça a visão de que, a despeito da aura política em que foi envolto nos anos 2000, a relevância estratégica do bloco é, antes de tudo, econômica. Se somadas as exportações para os 3 membros originais do grupo às destinadas a Bolívia e Venezuela – duas economias pequenas e que, em diferentes estágios, aproximaram-se institucionalmente do Mercosul –, o bloco perfaz 9,83% do total exportado pelo Brasil; os Estados Unidos, segundo maior parceiro comercial, representam 11,9%, cifra insuficientemente portentosa para justificar uma guinada absoluta.

A segunda prova de fogo por que deve passar o Mercosul a fim de se manter viável diz respeito à já quase balzaquiana negociação travada com a União Europeia. Emperrado por arestas impostas pelos dois lados – notadamente os setores agropecuário francês e argentino, bem como o industrial brasileiro –, o acordo derradeiro entre os dois blocos parece estar mais longe do que nunca. É verdade que os negociadores têm se esforçado em alargar concessões de ambos os lados, mas empecilhos pontuais, como a insistência em se proteger os setores vinícola brasileiro e lácteo uruguaio por um lado, e a consequente reação de embaraçar a entrada de carne bovina na União Europeia, por outro, mergulham as expectativas em puro ceticismo.

A própria chanceler alemã Angela Merkel reafirmou a exiguidade do tempo para superar dissensos restantes, ressaltando o óbice adicional representado pela eleição do novo presidente brasileiro. Menos evasivo, o mandatário francês Emmanuel Macron amparou-se na politicamente correta questão ambiental para sinalizar a dificuldade em ratificar alianças com um país que tergiversa em relação à permanência no Acordo de Paris (2015) e que abdicou da organização da próxima conferência climática da ONU por uma questão de… custo. Nas palavras do líder francês: “Tenho pedido a minhas empresas que se adaptem (ao acordo) e não assinarei tratados com países que não o façam ou não o respeitem.” Se subterfúgio para justificar a proteção aos produtores rurais de seu país, o fato é que tal posicionamento reflete, de alguma maneira, a suscetibilidade das negociações entre os dois blocos.

Do ponto de vista brasileiro, a subserviência com que a nova chancelaria promete se movimentar no xadrez geopolítico está embasada na expectativa de lucro decorrente da aproximação com os Estados Unidos. Movida fundamentalmente por afinidades ideológicas, essa estratégia pode, de fato, auferir algum resultado positivo para o país. Ainda assim, há pelo menos três motivos pelos quais a guinada diplomática requer alguma parcimônia.

Em primeiro lugar, o alinhamento aos interesses norte-americanos não representará benefícios automáticos em função da arqui-conhecida instabilidade política-diplomática-emocional do atual presidente daquele país, haja vista a sinuosidade de suas relações com a Rússia, a França, o Canadá, a Arábia Saudita e a Coreia do Norte – para citar apenas alguns dos casos mais paradigmáticos. Em segundo, a contrapartida da benevolência unilateral do Brasil pode esbarrar em obstáculos econômicos propriamente ditos. Além dos desafios internos (sobretudo, a política fiscal), a própria guerra comercial travada com a China, bem como os indícios de uma possível crise financeira prevista para 2020 por economistas de reconhecida capacidade preditiva, como Tim Lee e Nouriel Roubini, podem condenar qualquer promessa de um novo boom de investimentos diretos e/ou em portfólio por parte dos capitalistas norte-americanos. Por fim, a própria eleição presidencial poderá alterar, em dois anos, as prioridades da diplomacia estadunidense. A despeito da histórica vantagem de que gozam os candidatos já instalados na Casa Branca no pleito para reeleição, os nomes até agora aventados pelo Partido Democrata – Joe Biden, Elizabeth Warren, Kamala Harris e o próprio Bernie Sanders – não apenas ostentam respeitável estofo eleitoral, como representariam, uma vez eleitos, a antinomia de Trump em diversos assuntos, mormente os relacionados à política externa.

Nesse sentido, faz-se emblemática a decisão de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Se a intenção era apenas bajular a comunidade judaica no Brasil, a medida já seria condenável; se por ela pretendia-se reafirmar o alinhamento aos Estados Unidos e seus satélites no Oriente Médio, a decisão pode acarretar consequências econômicas desastrosas. Israel responde por apenas 0,13% das exportações nacionais; por outro lado, o Brasil colhe um superávit anual de 8 bilhões de dólares com o mundo árabe, notadamente em produtos de defesa e proteína animal, o que lhes confere o posto de segundo maior comprador de tais bens brasileiros. A reação de diversas entidades que representam os países árabes foi imediata. De acordo com o negociador-chefe da Palestina, Saeb Erekat, caso a mudança se concretize, o rechaço político e econômico será coletivo e em coordenação com a Liga Árabe e a Organização para a Cooperação Islâmica. Trata-se, pois, de medida pueril, açodada e irresponsável: por puro romantismo, arcar-se-á com inúmeros ônus sem que se colham quaisquer tipos de bônus.

É verdade que o Mercosul impõe uma série de amarras a seus membros, sobretudo ao Brasil. A começar pela própria dificuldade de se negociar questões tarifárias de forma conjunta. Nem sempre a conveniência de determinado favorecimento aduaneiro encontra nos demais signatários as mesmas condições. Seu alegado viés ideológico, por mais claro que seja o engodo subjacente a esse argumento, também deporia contra a boa prática do comércio internacional. Diante do pragmatismo da política comercial adotada pelo governo Lula, contudo – e, de certo modo, negligenciado sob Dilma Rousseff – esse não parece ser, definitivamente, o motivo do padecimento recente do bloco.

Mantida a coerência, espera-se que o novo governo brasileiro trate as relações sul-sul na América Latina com algum desapreço. A pouca cerimônia com que o Itamaraty desconvidou os representantes de Cuba e Venezuela para a posse presidencial revela a pequenez de sua perspectiva diplomática. Ainda assim, a dependência comum em relação à economia chinesa – outro país vilipendiado durante a eleição, cuja relevância maiúscula para o país tratou de amansar o discurso, porém –, aliada a simpatias ideológicas entre os vizinhos cujos líderes compartilham a mesma visão de mundo, pode ajudar a ressignifcar a estratégia econômica intra-continente. Quando as contas a pagar se acumularem sobre a mesa, a importância comercial dos países sul-americanos impor-se-á sobre a retórica eleitoral. A exemplo da simbologia inaugurada por Lula em 2003, quando visitou o Equador duas semanas após sua posse, Bolsonaro dedicará agora a deferência de sua primeira viagem internacional ao Chile, onde seu homólogo Sebastián Piñera governa a mais liberal e talvez a mais conservadora das nações sul-americanas.

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