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América Latina, 2019: desafios e potencialidades no início de um novo ciclo

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*Este texto foi escrito pelo colunista convidado Ivan Salomão, professor de História Econômica da Universidade Federal do Paraná.

A despeito das esperadas especificidades locais, a história da América Latina ao longo do século XX pode ser analisada a partir de movimentos comuns à maioria das nações situadas abaixo do Rio Grande. Ainda que por demais esquemática, a caracterização conjunta dos itinerários por que passaram esses países sugere a existência de ciclos históricos algo inexoráveis.

O furor despótico e nacionalista que varreu Europa a partir dos anos 1920 encontrou no outro lado do Atlântico terreno prolífico para o surgimento de lideranças igualmente ufanistas e autoritárias. Legitimamente ou não, a historiografia logrou alcunhá-los com estigma pouco lisonjeiro: eram, aqui, os famigerados populistas. Os fenômenos mais conhecidos foram o de Vargas no Brasil, Cárdenas no México e Perón na Argentina. Anos depois, o acirramento da Guerra Fria levou, sob o patrocínio diplomático (quando não, militar e financeiro) dos Estados Unidos, à irrupção de inúmeros golpes militares em praticamente todos os países da região. Tratava-se da maneira mais eficaz de extirpar a ameaça comunista.

Nesse mesmo período, os déficits do balanço de pagamentos em que passou a incorrer a economia norte-americana a partir da década de 1960 resultaram na abundância de recursos a baixo custo disponibilizados por conglomerados financeiros, da qual as principais economias latino-americanas fartaram-se de modo desregrado. Aos primeiros sinais de desarranjo do sistema monetário estabelecido em Bretton Woods (1944), somados ao colapso do padrão-dólar (1971) e às duas crises do petróleo (1973 e 1979), esses países sucumbiram durante a crise da dívida externa nos anos 1980. México (1982), Argentina (1984) e Brasil (1987) decretaram moratória de seus deveres para com o exterior, colapsando o acesso de toda a região às linhas de financiamento internacional.

Na década subsequente, o choque de capitalismo imposto pelos países credores a fim de viabilizar a renegociação pós-calote foi operacionalizado por meio de reformas liberalizantes. O conhecido Consenso de Washington determinava, entre outras medidas, aberturas financeira e comercial, privatizações e readequação da atividade estatal: de produtor, ao ente público caberia, a partir de então, apenas a tarefa de regular o sistema econômico. Em graus e formatos variados, todos os países da região adotaram políticas pró-mercado. Ainda que de modo tímido e limitado, até mesmo Cuba acenou, em alguma medida, à abertura de sua economia ao capital estrangeiro no ramo do turismo, por exemplo.

Quando o fim da história a que se referia Fukuyama mostrou não ser exatamente derradeiro, uma nova onda intervencionista varreu o subcontinente a partir do início dos anos 2000: Chávez na Venezuela, Lula no Brasil, os Kirchner na Argentina, Bachelet no Chile, Morales na Bolívia, Correa no Equador, Mujica no Uruguai, Lugo no Paraguai. A institucionalização dessa que parecia ser uma era de larga duração deu-se com a criação da União de Nações Sul-americanas (Unasul), em 2008.

E, finalmente, mais uma vez a reboque das circunstâncias antecipadas pelos países do hemisfério norte, a segunda década do século XXI assiste agora à uma nova guinada ideológica na América Latina com a eleição de diversos governantes politicamente conservadores e economicamente liberais: Piñera no Chile, Macri na Argentina, Uribe e Duque na Colômbia, Cartes no Paraguai, Bolsonaro no Brasil. A única, porém relevante exceção é o caso mexicano, onde López Obrador, ex-prefeito da capital de claro viés progressista, derrotou as poderosas máquinas do Partido Revolucionário Institucional (PRI) e do Partido da Ação Nacional (PAN). Com sinal invertido, trata-se da mesma disruptura ocorrida no Brasil de 2018, imposta aos respectivos sistemas políticos pelas mais severas crises sociais por que já passaram os países.

E o que se pode esperar desse novo ciclo político-econômico na América Latina?

Dado que em determinados países até o passado faz-se imprevisível, soa temerário cravar tendências de prazo alargado; indícios tópicos, porém, surgem à luz dos movimentos observados em outros continentes.

Do ponto de vista diplomático, a despeito da crescente, e hoje, insubstituível presença chinesa no cenário econômico da região – notadamente nas áreas comercial e de investimento em infra-estrutura –, desenha-se um realinhamento aos interesses norte-americanos. A aproximação com os Estados Unidos retomada pela Argentina, jamais abandonada por Colômbia e Chile e, agora, reforçada pelo Brasil pode até estar baseada em algum pragmatismo.

Não deixa de surpreender, porém, a dose imoderada de boa vontade ideológica com que os novos governantes da região têm se movido no xadrez geopolítico. Diante da reiterada intenção de retaliar países com os quais aquela economia incorre em déficit comercial – uma óbvia e natural consequência do modelo ricardiano de comércio internacional –, surpreende a bovinidade com que o chanceler argentino (país cujas exportações de aço e alumínio foram, ao lado das brasileiras, alvo da sobretaxa imposta, e depois retirada, pelo governo Trump) naturaliza os ataques às boas práticas estipuladas pela OMC: “Os Estados Unidos estão tendo conosco um diálogo sincero”. Franqueza, mas que também atende por síndrome de Estocolmo.

Ainda no front externo, a guerra comercial que se desenha entre as duas maiores potências do planeta pode tornar-se um cataclismo para a economia mundial – ainda que este seja, hoje, o cenário mais remoto. A expressiva (e arriscada) dependência da demanda asiática pelas commodities produzidas na América Latina pode levar a um estrangulamento incontornável no curto-prazo se a esperada desaceleração chinesa for catalisada por uma batalha protecionista deflagrada pelos Estados Unidos, outro player de fundamental importância para o dinamismo das exportações latino-americanas.

Leia também: “O lugar do Brasil na guerra comercial entre EUA e China”

Nesse contexto, a necessária abertura dos mercados da região deve ser empreendida com planejamento e parcimônia. O saldo positivo dessa estratégia – em especial, o aumento sistêmico de produtividade trazido pela maior integração econômica – pode ser eclipsado pela fragilidade social de países que ostentam índices de desigualdade incompatíveis com o convívio harmônico de seus povos. Uma persistente crise de desemprego, por exemplo, pode arruinar os esforços bem-intencionados de modernização de suas cadeias produtivas. A Argentina, o México e o Brasil pós-Menem, Salinas e Collor, respectivamente, provaram que abertura comercial exige perícia técnica e sensibilidade política; caso contrário, um arrombamento comercial não apenas desestrutura o sistema produtivo como também ultraja o tecido social latino-americano.

Legítimos e salutares, os ciclos político-econômicos contribuem para revigorar as bases da democracia, desde sempre alquebradas abaixo do Equador. Se a guinada liberal-conservadora por que atualmente passa o subcontinente representa retrocessos em determinados temas, notadamente os morais, sociais e ambientais, ela pode, por outro lado, colaborar para o equacionamento de desequilíbrios econômicos que acometem a América Latina desde, pelo menos, o final da II Guerra.

Leia também: “Painel exclusivo: o que esperar do cenário político-econômico do Brasil no governo Bolsonaro?”

O infindável debate acadêmico acerca da adequação do liberalismo no Brasil imperial transpõe os bancos universitários para, enfim, balizar as tomadas de decisões dos policymakers do século XXI. Se benfazejo para as economias que dele se utilizam com sabedoria e responsabilidade, o neoliberalismo contemporâneo pode, de fato, concorrer para desmontar determinados elementos do histórico subdesenvolvimento institucional da região. A realidade de países colonizados material e espiritualmente há cinco séculos exige, contudo, uma engenhosa adaptação dessa ideologia que aufere, ao fim de cada onda intervencionista, ares de axioma universal.

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